domingo, 20 de novembro de 2011

Resenha: FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago. 1997.



Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a “vida hostil”. Podemos chamar isso de “educação para a realidade”. Precisarei confessar-lhe que o único propósito de meu livro é indicar a necessidade desse passo á frente?
Sigmund Freud

O AUTOR
O livro Futuro de uma ilusão, publicado do original alemão Die Zukunft einer Illusion em 1927 foi escrito na conjuntura do depressivo período entre guerras por Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da psicanálise, autor de vasta produção científica.
1
No início, Freud aponta dos desafios que a civilização impõe as pessoas, como nessa própria relação. Ele aponta também acerca dos indivíduos, sendo poucos os que possuem a capacidade de abranger seu destino, pois isto depende de fatores pessoais de sua existência. É creditado que todo individuo é inimigo da civilização. A cultura humana, influência da 1º infância das pessoas, deveria educar os indivíduos visando uma melhor relação deles com a civilização, embora nenhuma até então conseguiu isso. Os homens, por exemplo, não são amantes do trabalho. A vida humana, considerada acima da vida animal oferece duas tendências, a saber, distribuição de riquezas e regulamentação da sociedade.
2
Como anunciado por Freud, essa visão econômica passa para a psicológica e torna-se mais clara a luta bipolar entre individuo e sociedade. São vários desafios que a civilização tem de vencer; a luta contra os inimigos da cultura, os neuróticos (com desejos anticivilizatórios), rebeldes, destruidores, insatisfeitos e os que reprimem (por serem reprimidos). Nisso, a arte compensa a dor da civilização, enquanto a religião equivaleria a uma ilusão.
3
O autor afirma que;
Já falamos da hostilidade para com a civilização, produzida pela pressão que esta exerce, pelas renúncias do instinto que exige. Se se imaginarem suspensas as suas proibições – se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se coloca no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença -, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida![1]

Mas isso traz conseqüências as pessoas, pois
Tal como a humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar. A civilização de que participa impõe-lhe uma certa quantidade de privação, e outros homens lhe trazem outro tanto de sofrimento, seja apesar dos preceitos de sua civilização, seja por causa das imperfeições dela.[2]


A civilização por um lado, segundo Freud, nos salvou da natureza, mas por outro lado existe a “humanização da natureza”; Os deuses ao mesmo tempo, são senhores dela e nivelam as dificuldades da civilização. A morte, do que o pai protege o filho, mas que teme o próprio pai pode ser entendido como de outra existência. Um dos bens desta civilização seriam as ideias religiosas, como atestado pelo autor da chamada piedosa América.
4
Freud afirma que
Uma investigação que progride com um monólogo, sem interrupção, não está inteiramente livre de perigos. Facilmente, fica-se tentado a pôr de lado pensamentos que nela ameaçam irromper, e, em troca, fica-se com uma sensação de incerteza que, no final, se tenta manter submissa por uma decisão radical.[3]


O psicanalista austríaco incorpora em seu diálogo um virtual opositor de suas ideias, que em suma, poderia acusá-lo de ser unilateral (essa sua própria afirmação). Se as primeiras formas de divindade eram animais e o homem primitivo não teria escolhas, o mesmo não pode se dizer do homem do estudo do Freud. A mãe, nessa conjuntura aparece como a 1º forma de defesa, enquanto o pai é a 1º forma de perigo a criança.
5
Da religião ele destaca 3 pontos: que dela os primitivos já acreditavam, as provas de transmissão do conhecimento religioso e o fato de não poder se levantar a autenticidade da religião, sendo por ele destacado que não é novo nem ele foi o 1º a fazer tais perguntas. Ele cita que
A primeira é o “Credo quia absurdum”, do primeiro padre da Igreja. Sustenta que as doutrinas religiosas estão fora da jurisdição da razão – acima dela. Sua verdade deve ser sentida interiormente, e não precisam ser compreendidas.[4]
6
A justiça é como uma ordem moral mundial e a ilusão deriva do desejo humano, não sendo somente irrealizável. Ninguém, necessariamente, precisa crer ou descrer.
7
Segundo Freud, se as doutrinas são ilusões religiosas, e o que são as outras coisas? A civilização se mantêm nas crenças religiosas, sendo equivalente a um suporte. O autor afirma que a civilização deveria abandonar a religião e ele afirma que está livre dos riscos disso, que ele afirma que se alguém o criticasse:
Mas, repito, esses tempos já passaram e, atualmente, os escritos desse tipo não trazem para seu autor mais perigo que para seus leitores. O máximo que pode acontecer é que a tradução ou distribuição de seu livro sejam proibidas num país ou noutro, e, precisamente, é natural, num país que esteja convencido do alto padrão de sua cultura.[5]

A psicanálise (do qual foi criador) enfrentou de tudo e é considerado por ele um método de pesquisa imparcial. Ele considera que as pessoas tem raiva da civilização e no fundo mesmo elas sendo veículos dela, o pecado é agradável a Deus, então
Se a única razão pela qual não se deve matar nosso próximo é porque Deus proibiu e nos punirá severamente por isso nesta vida ou na vida futura, então, quando descobrirmos que não existe Deus e que não precisamos temer Seu castigo, certamente mataremos o próximo sem hesitação e só poderemos ser impedidos de fazê-lo pela força terrena.[6]
8
A sociedade mata e não deixa matar, que Freud indica como uma compreensão míope. Assim 
Dessa maneira, a doutrina religiosa nos conta a verdade histórica – submetida embora, é verdade, a certa modificação e disfarce –, ao passo que nossa descrição racional não a reconhece.[7]

E também, seguindo essa linha de raciocínio
Nosso conhecimento do valor histórico de certas doutrinas religiosas aumenta nosso respeito por elas, mas não invalida nossa posição, segundo a qual devem deixar de ser apresentadas como os motivos para os preceitos da civilização. Pelo contrário![8]

A verdade histórica, segundo Freud, mostra os preceitos da civilização, como por exemplo, falar que os recém-nascidos são vindos da cegonha, entendido com isso uma roupagem simbólica.
9
Segundo Freud, os homens são dirigidos por suas paixões e instintos. A experiência das revoluções Russa (em 1917) e Francesa (entre 1789 e 1799), de tentar tirar a religião, acabou não trazendo o resultado esperado, embora o próprio Freud admita em seu livro que ele esteja tratando de muitos assuntos. Ele aponta para uma experiência de educação não religiosa e diz que a religião não deve ser eliminada pela força. Assim Freud afirma que
[...] Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a “vida hostil”. Podemos chamar isso de “educação para a realidade”. Precisarei confessar-lhe que o único propósito de meu livro é indicar a necessidade desse passo á frente?[9]

E finaliza a ideia com o poema de Heine
Deixemos o Céu aos anjos e aos pardais[10]
10
Continuando, Freud aponta para o fato de perigo de trocar a religião por outro sistema, e esse outro se assemelhar muito a religião, existe também a possibilidade do abandono das expectativas científicas, por outras que possam supri-las. Nisso, muitos homens não amadurecem. Ele afirma que
A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, obtêm êxito. Esse é um dos poucos pontos sobre o qual se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade, e, em si mesmo, é de não pequena importância. E dele se podem derivar outras esperanças ainda.[11]

Por essa lógica de Freud, a religião irá sumir tomando-se a parte defender a ilusão religiosa. Ele afirma que abandonar a religião não perde o interesse na vida nem no mundo. Então
Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.[12]


Em suma, a obra de Freud traz a ideia de laicização do mundo, entendendo a ciência como algo que pode ajudar a humanidade e a religião, como uma etapa que já deveria ter sido vencida. Essa obra foi produzida em um momento complexo da humanidade, em meio a crises como a de 1929 e em uma época que a ciência cada vez alcança áreas que antes eram de áreas mais tradicionais, como a própria religião, sendo um importante documento, os escritos de Freud, para se entender a conjuntura de uma época de muitas incertezas para a humanidade.


BIBLIOGRAFIA
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago. 1997.

[1] FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago. 1997. p. 25.
[2] FREUD, Sigmund. p. 27.
[3] FREUD, Sigmund. p. 34.
[4] O “Credo quia absurdum” é atribuído a Tertuliano, que teria dito que “Creio porque é absurdo”. FREUD, Sigmund. p. 45.
[5] FREUD, Sigmund. p. 57.
[6] FREUD, Sigmund. p. 62.
[7] FREUD, Sigmund. p. 68.
[8] FREUD, Sigmund. p. 70.
[9] FREUD, Sigmund. p. 77.
[10] Do original “Den Himmel uberlassen wir / Den Engeln und den Spatzen.
[11] FREUD, Sigmund. p. 84.
[12] FREUD, Sigmund. p. 87.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Resenha: LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução de Bernardo Leitão. 5º Ed. Campinas: Editora da UNICAMP. 2003.




A memória coletiva faz parte das grandes questões das sociedades desenvolvidas e das sociedades em via de desenvolvimento, das classes dominantes e das classes dominadas, lutando, todas, pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência e pela promoção.

Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.

Jacques Le Goff


O AUTOR
Jacques Le Goff, destacado historiador medievalista ligado a Escola dos Annales, autor de vasta produção historiográfica, foi responsável pela Escola dos Annales em sua terceira geração na década de 1970.

A OBRA
Ela é dividida em 10 capítulos e foi lançada em 1988. No prefácio o autor produz um estudo aprofundado sobre a história, exclamando se a história tem sentido ou se existe sentido nela. A história, portanto, é erudita, sendo também entendida como uma prática social e conseguiu, ao seu modo, passar as limitações da transmissão oral. A atual história é uma filosofia da história e também a história do homem. O documento é monumento e cabe ao historiador respeitar sua especificidade. O calendário, por exemplo, é uma forma de a sociedade domesticar o tempo natural, ligado a cultura e dialoga com as ciências da natureza e vida. O autor fala de eventos do século 20, como o fracasso do marxismo, fascismo, nazismo, as duas guerras mundiais e a bomba atômica, a renovação da ciência histórica (Escola dos Annales), e o terceiro mundo com sua nova história.

HISTÓRIA
O estudo da história começou na hegemonia européia. O autor apresenta o argumento de alguns intelectuais[1], e afirma que ela é renovação e crise, presente e passado, parte do presente no passado, além de poder ser divididas em duas: a história da memória coletiva e a dos historiadores. O documento é um texto e por isso um discurso, e por esse viés o autor afirma que o documento, o monumento e os textos nunca são puros. A objetividade do historiador não é somente uma omissão aos fatos, pois se ele possui gostos pessoais, seu trabalho deve ser guiado por critérios científicos, tanto que a filosofia da história é uma reflexão critica da prática historiográfica. A história pode ser conto, mas, ao mesmo tempo ela é poética, científica e filosófica e gênero literário (mas não literatura), ela possui seu método dedutivo[2], ela possui uma face sinistra e misteriosa (ao tocar em assuntos como morte e sofrimento). Segundo o autor, Karl Marx não formulou leis gerais na história e aponta também a questão da problemática das revoluções. Nem o passado ou a memória é puramente história, mas seu objeto de pesquisa e as fontes, nem mais objetivas ou históricas, pois a própria história é uma ciência e depende do saber adquirido profissionalmente. O autor destaca que sente muito prazer em ler romances históricos bem feitos. Conforme a época de produção do livro, a história era feita principalmente no mundo ocidental, comunista e no terceiro mundo. A historiografia segundo aponta Le Goff, nasceu de uma seita da Grécia antiga e os historiadores antigos possuíam muitos documentos, como listas reais da Babilônia e Egito, em uma época que a ideia de civilização era a própria ideia de história. Na antiguidade surgem obras de cunho da filosofia da história, como De Civitate Dei[3] e Muqaddina[4], considerando a história como uma ciência nobre. No cristianismo o tempo é o da liturgia, cronologia e linear. A história ficou a parte da revolução científica dos séculos 17 e 18, mas o século 19 foi importante a ela, pois encontrará uma base nas universidades e arquivos dos novos estados; na Prússia, por exemplo, era considerado um grande centro da história, como atestado por Leopold van Ranke:
Atribui-se a história a função de julgar o passado e instruir o presente para ser útil ao futuro; minha tentativa não pretende ter tão gigantescas funções, mas apenas mostrar como as coisas se deram realmente[5].

Em várias regiões a história assumia diferente formas: Na China só era história se fosse escrita, Gênova (Itália) possuía história própria desde o século 7 e na Itália, França, Espanha, Polônia e América do Sul predominavam os historiadores da vida social e política. Vale citar a tese de Fustel sobre a história,
Quando os monumentos escritos faltam á história, ela deve pedir as línguas mortas os seus segredos e, através das suas formas e palavras, adivinhar os pensamentos dos homens que as falaram. A história deve perscrutar as fábulas, os mitos, os sonhos da imaginação, todas estas velhas falsidades sob as quais ela deve descobrir alguma coisa de muito real, as crenças humanas. Onde o homem passou e deixou alguma marca da sua vida e inteligência, ai esta a história[6].

Segundo Le Goff, um documento falso também é um documento e até códigos de construção de documentos devem ser minuciosamente estudados, sendo que nessa ideia nenhum documento é inocente, pois podem existir os “fazedores de história”. Existe pouca produção historiográfica do leste europeu, destacando casos como da União Soviética (a história de seus territórios satélites é diferente da sua). A história-conto é substituída pela história-problema. É afirmado que toda história é história contemporânea e ela segue novas orientações, pensando-se na influência na crise do mundo das histórias, os limites e incertezas da nova história e a produção historiográfica, vinculada a sociedade do consumo.

ANTIGO/MODERNO
O par antigo/moderno é mais comum a Idade Média e ao século das luzes, entendendo-se que antigo está mais próximo de tradição enquanto moderno está para inovação, mas nem sempre se opuseram. O cristianismo, anterior a antiguidade, se opunha ao novo e não ao moderno. O cristianismo em sua conjuntura poderia ser entendido como novo, pois a antiguidade então era compreendida como a cultura greco-romana pagã. O embate antigo/moderno segundo o autor é total nos contatos iniciais entre os índios da América com os europeus, no Japão do pós-guerra ocorreu uma modernização equilibrada em meio às tensões, em Israel o debate está em salvaguardar o antigo e desenvolver o moderno, a arte africana e japonesa carregam muito da influência da arte ocidental no século 19. Por moderno, pode-se pensar no ocidente, no jovem e modernidade, cultura de massas (Edgar Morin), assim como as revoluções e os progressos materiais. Mas alguns campos são muito coesos aos dois conceitos, como o campo cultural, literal ou a reforma religiosa. Marx apontava que a abstração do estado político é um produto moderno. O autor aponta que moda deve ser diferenciada de moderno, e não precisa ser arte ou moderno para ser arte moderna.

PASSADO/PRESENTE
Por presente, a ideia não deve ser somente do instante, mas sim de uma interação entre eles. Na França, a contemporaneidade começa em 1789 com a Revolução Francesa e na Itália no Renascimento ou na queda do fascismo. Para alguns pensadores, a concepção de história é outra[7]. A Idade Média era uma época que as pessoas viviam sob um constante anacronismo, que segundo Le Goff “o passado não é estudado enquanto passado, ele é revivido e incorporado constantemente”. Os povos de Guérés, da Costa do Marfim, possuem 5 noções de tempo, em relação ao dia. A expressão novo e revolucionário é normalmente usada quando lembra melhoria. Os regimes nazistas e fascistas usavam as grandes memórias em suas convicções. Mas o autor aponta para o sentido social da história, observando influência do positivismo na psicanálise e distinguindo os velhos apocalipses e milenarismos na ciência-ficção.

PROGRESSO/REAÇÃO
A ideia de progresso surgiu na antiga Atenas e se espalhou no ocidente por volta do século 16. A crise de 1929 é relacionada com o mito do fim da prosperidade e, comumente, os regimes fascismo/nazismo são um preço pago por ela. O Japão é um país muito relacionado ao progresso, principalmente quando se toca nos anos de 1867 e 1945, marcos do crescimento nipônico. A Idade Média elimina o crescimento e combina-se com o cristianismo. Pode-se vincular o progresso a ideia científica e desenvolvimento, que ilumina o futuro e o passado. No humanismo o progresso é vinculado ao retorno aos antigos, a Revolução Francesa criou (porém negava) o progresso, não sendo somente um conceito burguês. A relação entre terceiro mundo e progresso,
Depois de 1945, a grande novidade, na perspectiva do progresso, foi o despertar do Terceiro Mundo e o seu acesso progressivo a independência. Esse fenômeno conduziu a desocidentalização da ideia de progresso e ao suscitar de esforços em favor do desenvolvimento[8].

IDEIAS MÍTICAS
Por mítico, entendem-se idades felizes. A idade mítica desempenhou um importante papel na história e humanidade como o mito do país da abundância, como entre os vários povos estudados nessa obra: nos índios guaranis existia o mito da “terra sem mal”, aos povos africanos era a idade do ouro, no oriente predominava a concepção de união entre terra e céu. No Egito existem muitos relatos sobre a “primeira vez” do mundo, na Mesopotâmia existe o poema de criação e no corão a ideia do lugar da felicidade.

ESCATOLOGIA
Escatologia é a doutrina das crenças relativas ao destino final do homem e do universo, considerado um tema recente datado do século 19. Bultmann, apontado por Le Goff, afirma que escatologia é “quando o homem é colocado perante uma decisão”, no hinduísmo e catarismo é a migração das almas (também chamado de metempsicose), no Valhala[9] germânico é o lugar dos heróis, os lapões, celtas e esquimós temiam que o céu caísse sobre eles, assim como na literatura germânica o ragnararok do poema edda voluspa tratavam do fim do mundo o apocalipse equivale a um desligamento de nossa experiência deste mundo. Segundo Mircea Eliade,
Os mitos do fim do mundo desempenham um papel importante na história da humanidade. Puseram em evidência a “mobilidade das origens”: de fato, a partir de um certo momento, “a origem” não está só num passado mítico, mas também num futuro “imaginário[10]”.

O autor apresenta o etnólogo brasileiro Kurt Nimuendajú, em seu trabalho sobre a emigração dos índios guaranis antes da chegada dos espanhóis a América. O ano novo ao mesmo tempo inspira morte e ressurreição. O oráculo é uma divindade que revela seus segredos. A laicização é considerada uma das primeiras metamorfoses da escatologia. Uma das influências diretas das ideias escatológicas são religiões como as atuais adventistas do sétimo dia e testemunhas de Jeová, nisso a escatologia se torna um novo desafio da história, pois segundo o autor, o que o historiador sabe do medo?

DECADÊNCIA
Segundo Le Goff, existia pouco estudo quanto ao tema de decadência. O termo não se opõe a progresso, mas é mais comum ser ligado a ideia de envelhecimento, como nos argumentos de Santo Agostinho que o homem possui 6 idades (primeira infância, infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice). Decadência também é ligada a um anúncio de renovação e crise, sendo comum o vínculo do termo a queda de Roma. O autor aponta que o romance histórico é uma forma de fuga do presente. Baseado nas teses de Marx, Le Goff afirma que em 1848 ocorre uma ruptura entre a burguesia e o povo. Segundo muito se defendia (e se defende), o destino de alguns impérios, igrejas e seitas é traçado pelas estrelas.

MEMÓRIA
Grécia e Roma são considerados os países da civilização da epigrafia, embora a escrita tenha levado um longo caminho ao seu suporte. Na Grécia foi criada a deusa da memória, Mnemonisa e em outras regiões como Egito, Mesopotâmia, China e América (pré-colombiana) civilizaram a memória. A memória é uma representação do passado, sendo histórica e social. O autor aponta para a memória dos computadores (ela é auxiliar dos seres humanos) e o código genética, os dois dotados de memória, embora não humana. É considerado um tema muito importante, pois algumas classes, grupos dominantes e indivíduos tem o desejo de ser senhores da memória. As primeiras culturas sem escrita eram certamente diferentes, mas não totalmente diversas. No Congo, o recém nascido ganha dois nomes, sendo que o segundo é o da memória. Na antiguidade, alguns monumentos como a estela de Naram-Sin e a famosa estela de Ramurabi são memórias dos reis. O autor aponta que a passagem da memória oral para escrita é difícil de entender, dada sua complexibilidade. No relato de Cícero, a memória esta presente,
Durante um banquete oferecido por um nobre em Tessália, Scopa, Simônides cantou um poema em honra de Castor e Pólux. Scopa disse ao poeta que não lhe pagaria senão metade do preço estabelecido e que os próprios dióscuros lhe pagassem a outra metade. Pouco depois, vieram chamar Simônides, dizendo-lhe que dois jovens o chamavam. Ele saiu e não viu ninguém. Mas, enquanto estava lá fora, o teto da casa afundou-se sobre Scopa e seus convidados, cujos cadáveres esmagados ficaram irreconhecíveis. Simônides, lembrando-se da ordem em que estavam sentados, identificou-os, e assim puderam ser remetidos aos respectivos parentes[11].

Assim como também pode ser vista a importância da memória em outros escritos,
Guarda-te de esqueceres Yahweh, teu Deus, negligenciando as suas ordens, os seus costumes e as suas leis [...]. Não esqueças então Yahweh, teu Deus, que te fez sair do país do Egito, da casa da servidão [...]. Lembra-te de Yahweh, teu Deus: foi ele que te deu esta força, para agires com poder, guardando assim, como hoje, a aliança jurada aos teus pais. Certamente que se esqueces Yahweh, teu Deus, se segues outros deuses, se os serves e te prosternas diante deles, advirto-te hoje, perecerás[12].

Observa-se em como a igreja cultuava os mortos, nos libri memoriales,
Quorum quarumque recolimus memoriam (aqueles ou aquelas cuja memória lembramos); qui in libello memoriali [...] scripti memorantes (aqueles que estão inscritos no livro da memória para que se lembre); quorum nomina ad memorandum conscripsimus (aqueles de quem escrevemos os nomes para guardarmos na memória)[13].

O dia 2 de novembro virou desde a Idade Média (no início da Igreja) a data de culto aos mortos, sociedade que venerava os velhos pela sua memória. A proposta dos enciclopedistas Diderot e D’Alembert era fazer uma recolha da memória com a enciclopédia. A valorização da comemoração e o túmulo são ambos do século 19 época em que foram criados os museus. Após a Guerra da Secessão nos Estados Unidos foi criada uma data comemorativa pelos nortistas. O auge da memória foi na era dos regimes fascistas e nazistas. Le Goff apresenta o argumento de Breton, “e se a memória mais não fosse que um produto da imaginação?” Segundo Freud, nada do que possuímos (na mente) pode ser inteiramente perdido.

CALENDÁRIO
O calendário (de calendarium, livro de contas) é um sistema anual, social, do ritmo do universo, cientifico, cultural e emblema de poder. Sua manipulação no início era um direito real e importante ao cristianismo. No Egito, cinco séculos antes de Cristo, existia um calendário de 12 meses e de 30 dias para cada mês. Por calendário pode-se também entender as tradições, dado que ajuda a entender as dificuldades de troca de calendário[14], como não conseguiu a Revolução Francesa com seu calendário revolucionário. A lua é considerada um objeto de beleza e apreciação de crenças sumidas, em que o próprio cristianismo não era favorável a ela. Os povos baulés da Costa do Marfim não nomeiam os meses nem seus nomes, assim como possuem várias formas para o dia. A semana, que poucos povos ignoram foi uma invenção dos hebreus, a Inglaterra (primeira nação industrializada do mundo), inventou o week-end, fim de semana dedicado ao descanso. O século é do latim saeculum, ou seja, equivalia a dizer geração humana.

DOCUMENTO/MONUMENTO
Segundo o autor, o que sobrevive do passado não é o que existiu e sim o que os historiadores escolhem para estudar, pois se o documento é a escolha do historiador, o monumento é a herança do passado. Monumento é originário de monumentun (monere), ou seja, “fazer recordar”. A história só existe devido aos documentos. Por volta de 1960 ocorreu uma explosão de fontes, sendo que Le Goff aponta que a revolução documental tende a substituir os próprios documentos. O autor enfatiza que todo documento também é monumento e que essencialmente, todo documento também é mentiroso, dado suas origens de produção.

BIBLIOGRAFIA
BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. Tradução de Nilo Odalia. São Paulo: Editora UNESP. 1997.

DAVIDSON, Hilda Roderick Elis. Deuses e Mitos do Norte da Europa. Tradução de Marcos Malvezzi Leal. São Paulo: Madras. 2004.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução de Bernardo Leitão. 5º Ed. Campinas: Editora da UNICAMP. 2003.



[1] Paul Ricoer “a história é o reino do inexato”; Paul Veyne “a história é também a história natural e humana”; Heidegger “ela é a projeção da parte imaginaria no presente”; Humboldt “dever do historiador”; Troeltsch “não existia uma, mas mais histórias”; Hegel que segundo Le Goff foi o primeiro filósofo a colocar a história no centro da reflexão. Outros pensadores, como Marx são destacados, mas ele só estudou a história européia e ignorou o conceito de civilização; Gramsci “história e a filosofia formavam um único bloco”; Strauss “podemos chorar o fato de existir história”, Paul Veyne “a história é uma luta contra a ótica imposta pelas fontes”; Lucien Febvre “a história é ciência e necessita de técnica, métodos, além de ser ensinada”.
[2] Como na imaginação de animar os mortos e a imaginação científica.
[3] De Santo Agostinho, iniciada por volta de 413 e finalizada em 426.
[4] De 1377.
[5] LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução de Bernardo Leitão. 5º Ed. Campinas: Editora da UNICAMP. 2003. p. 85.
[6] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 107.
[7] Para Hegel “o passado é o fardo da história”; para Piaget “é quando a criança compreende o tempo, ela se liberta do presente”; Michelet “a história da França começa com a língua francesa”; Hobsbawn “o passado é o período anterior que o individuo lembra”.
[8] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 85.

[9] Cf. DAVIDSON, Hilda Roderick Elis. Deuses e Mitos do Norte da Europa: Uma Mitologia é o comentário específico de uma era ou civilização sobre os mistérios da existência e da mente humanas. Tradução de Marcos Malvezzi Leal. São Paulo: Madras. 2004. Cf.: LANGER, Johnni. Deuses, Monstros, Heróis: Ensaios de Mitologia e Religião Viking. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 2009.

[10] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 329
[11] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 437-438.
[12] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 438.
[13] LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 442.
[14] Segundo Le Goff, uma reforma no calendário só é possível se antes se respeitar a história, pois o próprio calendário é história. LE GOFF, Jacques. Op. cit. p. 521.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Resenha: FERRO, Marc. A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação. Tradução de Wladimir Araujo. São Paulo: IBRASA. 1983. 310 p.


“Saiba o leitor que senti alegria e verdadeira paixão ao planejar e escrever esse livro. Que ele te ajude, amigo, como a mim, a compreender melhor o teu próximo.” 

Marc Ferro, Historiador Francês 

Fabio Antonio Costa 
Mestrando e Especializando pela PUC-SP 
fabioantoniocosta@hotmail.com 

 Produzida em uma época que a História e outras disciplinas estavam reformulando suas bases de pesquisa, a obra A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação, do historiador francês Marc Ferro , destaca-se por usar métodos de pesquisa na época pouco difundidos, como o cinema, uma especialidade de Ferro. 


 No prefácio, o autor destaca a imagem que possuímos de outros povos, sendo por ele considerado o que nos foi ensinado quando crianças na escola. Essa imagem foi estabelecida pelos poderes dominantes, como o Estado, a Igreja (católica e outras), o Partido e interesses privados (p. 11). A história então pode ser entendida como a história do ocidente, destacando-se alguns grandes descobrimentos, como o Humanismo, Reforma Protestante ou Modernismo. Segundo Ferro, “é necessário restaurar a verdade” (p. 14), embora o conceito de verdade em história seja muito discutível, não havendo um consenso acerca disso. São estudados os manuais didáticos e livros de história nos quatorze capítulos do livro: 


1. A História branca: Johannesbourg, a África do Sul, segundo Ferro, é considerada uma área de peregrinação, local dos Bôeres, povo que usava uma bíblia e o rifle contra o medo e solidão e após o Congresso de Viena, o colonizador bôer torna-se colonizado da Inglaterra (p. 28). Outros grupos, como os Bosquianos (considerados bárbaros) ganharam um tratamento parecido aos índios dos Estados Unidos, sendo fechados em reservas ou exterminados, os Bantos conheciam exatamente a natureza e sistema solar e os Xhosas que só migraram para a África do Sul depois do fim Monomotopa. O autor destaca que no país do extremo no continente africano, sobressaia a história branca perante a história negra. 


2. A História descolonizada: a África Negra são três as vertentes que direcionam o passado da África Negra; tradição oral, história ensinada pelo colonizador e por uma reavaliação geral. As três são construídas por grupos específicos, que moldam o conteúdo da história em conformidade aos interesses do poder, reduzido nos currículos e a contragosto de vários grupos. Destaca-se a figura de Chaka do reino Zulu, uma mistura de lenda e história (p. 35) que em seu exército utilizava de métodos espartanos na guerra e por algum motivo não comprovado, Chaka não deixou filhos e após sua morte o seu reino se afrouxou. Alguns reinos e impérios são destacados, como Gana, Mali (reino de Mansa Moussa), Songhar e Suahili. Segundo o estudo de Denise Bouche (1817-1860), somente os filhos dos franceses iam à escola e não se falavam dos gauleses, importantes personagens na história francesa. Destaca-se uma música do livro de Georges Hardy: 


“Para que a nossa África seja rica, Amigo, vamos trabalhar, trabalhar... Em vez de dormir ou conversar, vamos, Vamos limpar a terra. Antes de convidar parentes e vizinhos, Paguemos os impostos, saldemos as dívidas e coloquemos de lado uns sacos de grãos. Então, sim, poderemos cantar em voz bem alta... Salve, França, e glória ao teu nome, nós te amamos como à nossa mãe, porque é a ti que devemos o fim de todas as nossas misérias...”


 Sow Ndeye, estudante com 12 anos no momento da independência do Senegal, relata que na escola estudou personagens e o clima europeu, muito diferentes do seu país de origem. São destacados alguns pontos acerca do continente, como a África tropical ser considerada o berço da humanidade no 6º Congresso Pan Africano, na afirmação de Oumar Kane, que nos anos de 1950 e 1960 floresceu os movimentos de independência, a tendência a unificação e centralismo monárquico. Existe, segundo Ferro, comparações, como no caso do Reino de Gana e o ocidente cristão ou o poema Herekeli, que pregava a conversão dos cristãos e pagãos ao Islã (p. 48), que diferente de outras religiões, aceita a poligamia. Segundo Ferro, “desde que se trate do islã, a mão do historiador põe-se a tremer” (p. 46). 


 3. Nota da leitura sobre uma variante em Trinidad, a reação exorcista, é analisada a história construída na América Central e especialmente em Trinidad e Tobago. Nesse pequeno país, a comunidade negra é a dominante e segundo o livro Our Heritage, as índias ocidentais são habitadas por muitos povos e é afirmado que os africanos são negros, embora os negros sejam apenas um dos vários grupos que habitam a África (p. 53). Nesse e em outros livros de história, são anuladas vários conflitos e conforme os interesses locais são explorados assuntos como o petróleo e a máquina, ligados a civilização ocidental, afirmando inclusive que eles dois poderiam tirar a ilha do subdesenvolvimento que se encontrava (p. 51). 


 4. Nas Índias, a História sem identidade, inicia-se com a afirmação que os invasores da Índia se adaptaram a ela. São vários os grupos que fazem suas versões da história da Índia; as lendas purificadas, o livro de Vedas, o conto de Rama e Sita, o livro de Buda e o Hinduísmo. Outros grupos forjam suas versões, como no conflito entre os arianos do norte versus os hindus do sul que “ficaram amigos” (p. 59), a bondade de Alexandre o Grande ao rei Porus da Índia, que era “mestra” inclusive da China nos impérios Mauryas, Guptas e Harsha. Contrario a isso, Ferro afirma que o Camboja, Java e Sumatra foram tomados pela força (p. 63). Outros grupos, como os ingleses constroem suas versões, como na comparação da Índia a uma mulher e no conto do macaco e dos dois gatos e encontrava-se na “infância”, “faltando a ela força física, disciplina, sentido de organização”, além de ela favorecer os muçulmanos. O autor explora as influências da Revolução Americana e Francesa e filósofos como Rousseau, a exaltação a Gandhi, a supremacia hindu frente aos muçulmanos e a pouca importância dada ao comunismo antes da independência da Índia. 


 5. História do Islã ou História dos Árabes, a história do islã (considerado um fenômeno recente) é baseada em uma seleção de fatos e acontecimentos nos fundamentos do alcorão e no profeta Maomé. A Idade Média, segundo Ferro, possuía uma intensa relação com o islã, embora ele ignore as Cruzadas, sendo que elas junto ao imperialismo (considerados insetos parasitas que sugam o sangue) fragilizaram muito o mundo árabe. Portugal é o primeiro a fazer contato com o mundo árabe, seguido da Espanha e França. Da formação do mundo árabe e islâmico, o conjunto Árabe - Iraque é considerado o primeiro reino (p. 79), ficando nítida no Iraque a identificação com os árabes, originada segundo o autor no califa Abd El Malik El Marwan, que adotou o árabe no estado árabe islâmico ao invés de grego, copta ou persa (p. 84). A história árabe e islâmica possui os fundamentos do Ijara, sendo considerada uma licença para matar (p. 82) e segundo os manuais de história estudadas pelo autor, pouco ou nada consta sobre os Abássidas nem do massacre dos Omíadas. 


 6. Variante Persa (e Turca); no cenário árabe destaca-se o Irã, que resistiu ao Império Romano e se distancia do mundo árabe, merecendo destaque por Ferro o confronto com os árabes pela língua persa, que no Irã desde 1501 a maioria é Xiita pela dinastia dos Safávidas. O Egito, às vezes considerado líder do mundo árabe, é ao lado do Irã, de população “ariana” (p. 105). Ferro destaca também os Turcos, um povo muito orgulhoso por ter dominado os árabes, ameaçado a cristandade e pelos seus cinco séculos de império, os Hunos por só se conhecer sua história pela história dos inimigos (p. 119), o Império Otomano, considerado multinacional e tolerante e o reino de Harun Al Rashid e seu famoso conto das Mil e uma noites. 


 7. Do Cristo Rei a pátria e ao Estado: A História vista da Europa, Ferro afirma que a história produzida pelos historiadores não é a única história (p. 121), contrariamente a história contada na Europa, que possuía um elo com Roma até pelo menos o século. Na Espanha as festas celibéricas são a memória popular espontânea que acontece em vários pontos do reino espanhol, destacando-se Castela, acima de Catalunha, País Basco e Galícia (p. 124). O autor destaca alguns seguimentos em que se destacam a história de cada país; na Espanha são as festas, na Inglaterra o teatro e romance e na Alemanha o cinema, que após a derrota do nazismo a história entrou em um tabu, não apresentando ruptura entre os anos de 1933 a 1945 (p. 127). Hitler enfatizava as linhas de evolução e Lutero afirmava que a Reforma Protestante era a primeira revolução dirigida contra a opressão do estrangeiro de Roma (p. 128). Os Ingleses criam os primeiros campos de concentração na guerra com os bôeres. O ensino de história na França segundo o autor é “assassinada”, devido à concorrência que ela sofre como pelos meios de comunicação, por fim, Ferro relata a boa experiência que teve ao ver sua filha Isabelle na escola na região de Ampére, relatada por ele com uma boa aula (p. 140). 


 8. Imagens e variantes da História da URSS, na famosa frase de Nikita Krushev, “os historiadores são pessoas perigosas; são capazes de desarrumar tudo. Devem ser dirigidos” (1956), indica como é direcionada a história russa. Os varegues que fundaram o estado russo não aparecem nos livros de história, mesmo sabendo que os primeiros príncipes russos eram varegues. Tal negação segundo o autor deve-se ao fato de na Rússia existir a afirmação do desenvolvimento vir de dentro (p. 158). Na Revolução Russa, os bolcheviques assumem o poder e história em 1917, e no meio do século, o historiador da Rússia engrandece as instituições soviéticas, esconde personagens como Trotsky, Stalin e os horrores da coletivização forçada. Na história soviética, era comum a convicção a derrota do capitalismo (p. 153), embora o próprio imperialismo russo (que tinha muitas variações em sua história) fosse dependente do capitalismo ocidental. A cidade de Moscou era um “açambarcador” da terra russa e países como Bielo-Rússia e Ucrânia, que se entendia por serem povos irmãos (p. 157). No período da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e Inglaterra desconfiavam dos soviéticos (p. 172); o primeiro acreditava que os soviéticos não poderiam vencer a guerra enquanto os segundos queriam que os soviéticos lutassem contra os japoneses. A União Soviética ajudava a praticamente todos, inclusive as colônias e inicialmente foi contra o desmembramento da Alemanha nazista. 


 9. A História, Salvaguarda da identidade nacional da Armênia, destaca-se a história do pequeno país do leste europeu. No século três a Armênia se torna a primeira nação cristã, misturando a religião a sua identidade nacional. Ela é também uma nação de comerciantes, um estado vassalo entre dois impérios. Os armênios são ligados ao seu pedaço de terra (p. 202), sendo que o autor destaca que desde o século cinco eles tentam conservar sua história. Fato difícil, pois segundo Ferro, essa pequena nação sempre correu riscos e invasões, como no desejo dos turcos de eliminá-la (p. 199), a entrada da cultura grega pelo imperador Alexandre e a influência soviética na era contemporânea da Armênia, que dava a mesma história de áreas de seu domínio, como a Geórgia ou Azerbaijão (p. 179). 


 10. A História vista de perfil: a Polônia. A partir da dinastia dos Piast, considerado um embrião, funda-se o estado polonês. Em sua história coexistem várias versões, como a mostrada nos filmes Karnal (1983) e No tempo dos Suecos, a matriz marxista na história oficial (que deveria formar bons cidadãos) e a batalha de Grunewald, no qual ocorre a derrota dos cavaleiros teutônicos, simbolizando a vitória polonesa (conhecidos também como povos eslavos) contra os alemães. Nos livros de história da Polônia, são destacados personagens como o cientista polonês Nicolau Copérnico (p. 211). Pouco se explora a parte leste da Polônia, devido à ocupação soviética (p. 209). O autor destaca a teoria dos dois inimigos (nazistas e soviéticos) e também é ressaltada a ocidentalização da Polônia pelas influências da Igreja e de Roma. 11. Nota sobre as incertezas da História da China. Nos manuais de história do império chinês, afirma-se que ela criou sua própria cultura (p. 222), afirmado como nas ideias do “salto para frente”, assim como na invenção da seda, papel, bussola etc. O ensino de história é concentrado apenas no território chinês, isso se considerando a difícil unificação desses estudos em um país que teve mais de quatro décadas de guerra civil. Desconsidera-se, por exemplo, as diferenças entre Taipei e a China e os mais de dois milênios de duração do feudalismo na China. 


 12. A História do Japão: um código ou uma ideologia? Os monarcas japoneses, segundo aponta Ferro, eram descendentes dos deuses, que reforça a ideia que o Japão é criado, governado e protegido pelos deuses (p. 256), junto com a China é considerado como o país do arroz, protetor da Ásia, em sua antiga história. No século quinze, destaca-se a época dos grandes guerreiros (posteriormente explorado pelo cinema). O Estado-Família, que segundo Ferro só acontecia no Japão, é baseada na ideia da nação ser uma imensa família, onde o imperador é o pai. Até o começo da década de 1940, havia poucos livros da história do Japão e nessa época era comum a admiração a Alemanha (nazista) e criticas a cidades como Xangai, Londres e Cairo. Um bonito poema (p. 243), do ministro da direita japonesa, Michizanê, é apresentado, na sua retirada do partido: 
Quando soprar o vento, Flores de ameixeira, 
vocês se lembrarão? 
Mesmo se eu não estiver, 
Não se esqueçam da primavera. 

13. A História “branca” em demolição: os Estados Unidos. O autor aponta como os Estados Unidos ignoram o mundo exterior (o primeiro livro de história foi lançado em 1823) e direcionam sua própria história, como ao afirmarem que o catolicismo e o espanhol serem o fracasso da América. A divisão da história estadunidense era dividida em cinco períodos e pouco se explorava eventos, como a Guerra da Secessão (visando unir a nação). Os meios de comunicação possuem grande influência, como o filme Nascimento de uma nação (1915), E o vento levou (1939), pois reforçam a ideia do “bom negro”, sempre representado como servidor doméstico. A criação da décima terceira emenda tornava o negro um não escravo, embora continuasse a ser um não cidadão, havia, portanto, separação e não igualdade (p. 273). Nessa conjuntura, destaca-se o papel de Martim Luther King (atuante e líder do movimento de massa de boicote) e os revolucionários Panteras Negras. Outros grupos também são estereotipados, como a associação entre os comunistas ao personagem Robin Wood, o irlandês emigrado (chamado de Paddy) sempre representado como briguento e barulhento e sua “rivalidade” com os negros pelos empregos. 


14. Nota e leitura sobre a História “proibida”, Mexicanos-Americanos, aborígenes da Austrália. A visão dos vencidos, segundo Ferro, foi desenvolvida por Nathan Wachtel com os índios do Peru (p. 282). O desaparecimento de quase três quartos dos índios, não possui menção nos livros de história dos Estados Unidos. A própria história mexicana era sempre ligada com a estadunidense, negando a história dos povos chicanos (chamados de méxico-americanos ou Raza). Ferro destaca a história dos índios dos Estados Unidos (p. 285): 


(...) No começo tudo estava na escuridão. Os espíritos haviam criado as pessoas e os rios, as cavernas, os rochedos e todas as coisas que vivem. Deram a cada clã sua terra, seu totem, seus sonhos. (...) Nem as pessoas, nem os pássaros, nem os animais podiam ver porque não existia luz e cada um ficava onde estivesse, sem se mover. Um dia, todos os animais se reuniram e disseram: “É preciso fazer alguma coisa para que a luz apareça”. Conversaram, conversaram, mas não aconteceu nada. Até que enfim a rã disse que poderia fazer vir o sol graças a um cântico mágico. (...) 


 Os índios australianos ou aborígenes possuem uma situação em paralelo com os nativos do México e Estados Unidos, iniciando o contato com a Europa nas viagens de James Cook em 1770. Segundo Julio Verne, os aborígenes da Austrália possuem sua história, conservada pela tradição oral (p. 284). Segundo os relatos dos aborígenes australianos, os grandes navios (dos colonizadores ingleses) eram “grandes pássaros que flutuavam no mar”, “ensinavam a palavra de Deus” e em seus relatos, suas “crianças iam à escola”, além de nos mesmo relatos os aborígenes afirmavam que “nossas pegadas serão desfeitas pelo vento”


 Na conclusão, Marc Ferro que o espelho quebrou pela miragem da História, afirma que a memória das sociedades pode ser considerada como uma segunda fonte, o marxismo que pode ser usado pelos interesses e manipulações dos modos de produção, como nas variantes da União Soviética e China e a contribuição dos Annales com as novas bases de pesquisa. 


Em suma, uma importante obra que transita por campos como a história, geografia e política, buscando analisar os conjuntos e modelos de história que são explorados por determinados grupos específicos, que proporcionam uma visão da história que se não traz na sua essência a cientificidade e seriedade necessárias, trazem uma história que ao valorizar determinados pontos de vista, e que Marc Ferro, em sua conhecida obra, explora brilhantemente.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Resenha: DAVIDSON, Hilda Roderick Elis. Deus e Mitos do Norte da Europa: Uma Mitologia é o comentário específico de uma era ou civilização sobre os mistérios da existência e da mente humanas. Tradução de Marcos Malvezzi Leal. São Paulo: Madras. 2004. 226 p.


Fabio Antonio Costa
Mestrando e Especializando pela PUC-SP


Coloco-me de frente para o leste; rezo pedindo favor.
Rezo para o grande senhor; rezo para o poderoso governante;
Rezo para o sagrado guardião do céu.
Rezo para a terra e os altos céus.

(Encantamento Inglês)


Publicado em 1964 do original Gods and Mythis of Northern Europe, da historiadora especialista em mitologia nórdica, Hilda Davidson, a obra Deuses e Mitos do Norte da Europa é dividida em oito capítulos e possui também índice de nomes e categorias. É uma importante referência, entre as poucas disponíveis no Brasil, acerca dos mitos pagãos na Europa do período anterior ao cristianismo, e transita entre os campos da história, psicologia, arqueologia e mitologia.

Na Introdução, a autora aponta que os mitos são uma percepção das realidades anteriores, como no caso da literatura. São destacados os poemas como Beowulf e a memória dos costumes pagãos, como o simbolismo do personagem Grendel, que representava o clima perigoso das terras pantanosas. Segundo Davidson, os noruegueses e suecos lançaram os primeiros ataques as vilas, mosteiros e igrejas, como no clássico ataque a Lindisfarne[1] na Inglaterra, um mosteiro que era um centro de aprendizado e inspiração. Os líderes vikings eram homens de cultura, embora poucos vikings soubessem escrever. A entrada do cristianismo na Escandinávia nos séculos dez e onze e mais especialmente no templo de Uppsala em 1164 iniciou a derrota viking[2]. A autora inova com alguns métodos para fazer seus estudos, como a importância da arqueologia nos ritos funerários, o estudo de nomes e lugares, o estudo da história das religiões para elucidar, como no exemplo apresentado dos muitos níveis do cristianismo, por fim a frase do Dr. Johnson, que “todo peito devolve um eco”, elucida acerca de como a mitologia ajuda a entender a compreensão e profundidade da mente humana.

No primeiro capítulo (O mundo dos Deuses do Norte) o Islandês Snorri Sturluson, um chefe de tribo, político, historiador, poeta e escritor de sagas ganha destaque, a sua Prose Edda, datada de 1220 é ao mesmo tempo um fiel retrato da mitologia pagã, embora Snorri possua um ponto de vista cristão. São apresentados mais pontos do mundo pagão, como a árvore Yggdrassil; segundo a descrição, seus galhos vão do céu a terra, ela possui três raízes que sustentam seu tronco que atinge o reino dos Deuses (Esirs), dos gigantes e dos mortos, a fonte de Mimir que trás sabedoria e conhecimento, a águia (principio masculino) que provoca os ventos, a serpente (principio feminino) na raiz da árvore, Válaskjálf, a morada com telhado de prata de Odim em Asgard, Valhala o palácio dos aniquilados. Alguns personagens da mitologia são também apresentados como Tor, filho de Odim e dono do martelo Mjollnir, os deuses Baldur e Hermod, o barco Skidbladnir de Frei que “era grande para caber os deuses, mas que quando dobrado cabia em uma sacola”, Friga esposa de Odim, os irmãos gêmeos Frei e Freia e o lobo Fenris[3].
Loki assumiu a forma da serpente do mundo, Midgardsormr, e segundo os relatos apresentados pela autora, Odim a arremessa ao fundo do mar, e por lá permanecendo. Outra história contada foi à jornada de Tor a Utgard, em companhia de Tir, Loki, um fazendeiro e seu filho. No relato, Tor matou seus bodes da biga para matar a fome de todos e depois ressuscitá-os. Eles ouvem um rosnado, que era o ronco do gigante deitado chamado Skrymir, e segundo o relato:
(...) Mas quando Tor tentou abrir a sacola, (que o gigante fechou com as comidas do grupo) não conseguiu, por mais que tentasse. Furioso, ele bateu na cabeça de Skrymir com o martelo. O gigante só abriu os olhos e perguntou tranquilamente se uma folha tinha caído nele. Acabaram indo dormir sem jantar, e novamente o ronco de Skrymir lhes incomodava os ouvidos. Tor bateu nele com o martelo uma segunda vez, mas a reação do gigante foi perguntar se uma bolota havia caído em sua cabeça. De madrugada, enquanto o gigante ainda dormia, Tor bateu-lhe uma terceira vez, e dessa vez a pancada foi tão forte que o martelo afundou no cabo. O gigante levantou-se e disse que um pássaro devia ter derrubado algo sobre ele do alto da árvore. (p. 27).

No decorrer da história, Tor e seus seguidores perdem para Utgard e Loki, trapaceados por uma sagaz magia. Destaca-se também o sábio Kvasir, capaz de responder a todas as perguntas, posteriormente morto por dois anões. Na batalha entre Tor e Hrungnir, uma pedra atinge a cabeça de Tor, fixando-se em sua testa, e seu martelo Mjollnir é roubado pelo gigante Thryn. Loki que em um evento anterior se transformou em uma mosca para atrapalhar os anões na construção de Mjollnir, resultando em um cabo pequeno, ajudou Tor a recuperá-lo, sendo que ele se vestiu de noiva com a ajuda de Loki, mesmo com Tor não achando isso digno. Loki, um personagem mestre em traquinagens, cortou o cabelo dourado de Sif, esposa de Tor e os anões, os mesmos que fizeram o martelo de Tor, reconstruíram o cabelo de ouro verdadeiro de Sif. A autora finaliza o capítulo com as muitas perguntas a serem respondidas, sendo a mitologia uma ponte partida aos estudos.

No capítulo dois (Os deuses de batalha) são discutidos acerca de qualidades da sociedade viking: brevidade de vida e violência. Odim, conforme um relato maneja flechas mais rápido que qualquer ser humano, possui semelhanças com outros deuses, como Wodan ou Wotan e Tîwaz nos territórios germânicos e existem outras semelhanças, como Dieus, palavra indo-germânica para Deus e que significa também céu brilhante e luz do dia. Alguns ritos e poderes são comuns aos deuses, como afundar objetos no solo, ser pendurado de cabeça para baixo para adquirir sabedoria ou a arma se voltar contra o inimigo, considerada essa uma assustadora maldição. As Valquírias são seres de armadura, montadas em cavalos acima do mar e terra, a procura de sangue e sacrifício.

O Deus Tor é o tema central do terceiro capítulo (O Deus do Trovão). Filho de Odim e da Terra[4], marido da enigmática Sif, é possivelmente um dos deuses nórdicos mais falados de Asgard, Tor segundo a autora, se destaca de outros deuses como Odim e Loki como por ter um método diferente de matar; era bem mais rápido. Seus principais adversários eram os gigantes, como Hrungnir, Thryn, Hymir, Geirrod e a Serpente do mundo, que habita o fundo do mar. Segundo os relatos que chegaram a nós, Tor é uma figura grande, de barba vermelha, martelo de cabo curto (para arremessar), luvas de ferro e possui um cinto que lhe atribui enorme força, seus olhos incandescentes emitem um terrível clarão e possui também uma temível voz. São vários os simbolismos sobre Tor, como antigamente se acreditava que o ribombar de uma tempestade anunciava sua chegada, ele também era o guia dos vikings nas chuvas e seu martelo, Mjollnir, era levantado para o consagramento do nascimento de um bebê, posteriormente, no período de cristianização da sociedade viking, existia uma mistura na imagem do martelo do Tor e da cruz cristã, para agradar os dois símbolos no período de transição de uma religião para outra. Tal era a fama de Tor, que na Islândia, a sua famosa assembléia geral só abria no dia do Tor e no calendário, em Inglês, a quinta-feira é Thursday, que pode ser traduzido como “dia do Tor”.

Outros deuses são estudados no quarto capítulo (Os deuses da paz e a abundância), destacam-se Tor e Odim por serem deuses da fertilidade e paz e não somente de guerra. Os deuses nórdicos, assim como outros, comem juntos dos humanos como atestado por Gunnar Helming e segundo o rei Eric da Suécia, bastava à charrete ficar pesada que fosse certo que um deus estava nela. Na Dinamarca, Frei possui um equivalente chamado Frodi, também um deus da fertilidade. De um modo em geral, mas não como regra, os deuses masculinos são associados ao mar. As deusas são aquelas que nunca morrem, e nisso destaca-se a figura de Friga (ou Frija), única deusa de Asgard, esposa de Odim e mãe de Baldur, um dos dias da semana em Inglês, Friday (sexta-feira) é referente a ela. No poema Edda, Friga e Freia são as deusas invocadas no trabalho de parto e segundo Snorri, jovens não casadas ao morrer iam para Gefion. Exemplos a partir destas duas deusas, as Spaewives, conforme Flateyjarbók eram mulheres sábias que podiam prever o futuro, sendo bem aceitas nas sociedades escandinavas. As viagens de Freia eram feitas de charrete puxadas por gatos e ela podia assumir a forma de um pássaro como Odim e Loki, mas foi acusada por esse último de ter um caso com seu irmão, assim como todos os deuses e elfos, embora as fontes e poemas indiquem por ela um bom comportamento. Os xamãs eram uma classe de videntes altamente treinados, intermediários entre o mundo dos deuses e dos homens, e que poderiam descer ao reino dos mortos. Suas vestimentas representavam animais e entre seus propósitos estão às questões da comunidade, como carência de comida, epidemia ou mesmo questões individuais. Suas viagens espirituais ao submundo eram em meio a um terrível frio, escuridão e barreiras de fogo. Os deuses, como nos exemplos citados, podem ser personificados em vários nomes, como Hera, Afrodite e Artemis na Grécia Antiga, ou Asherah, Astarte e Anat na Síria ou Cibele e Isis em Roma.

No capítulo cinco (Os deuses do mar), o destaque fica por conta desse importante elemento da sociedade escandinava: o mar. Considerado um elo entre as culturas nórdicas e celtas, ele possui grande destaque nos mitos, fonte de alimento e rota do comércio. A crença era tanta, que uma das maiores calamidades era não conseguirem peixes, sendo considera a colheita dupla a pesca e colheita de comida. Do mar vinham os governantes e destruição. A água era considerada alimento, inspiração, sabedoria e vida. Segundo a crença popular da Islândia, os afogados no mar iam para Ran, um lugar reservado para os falecidos no mar e era bom nesse caso ter ouro com o afogado, para garantir sua entrada no novo mundo. O deus Egir possuía nove filhos, considerados as ondas do mar, Njord, pai de Frei e Freia possuía ligação com o mar. Os mortos, já no ano 600 eram cremados em barcos e em Labdy (Dinamarca) foram achados ossos de cavalos e cães, indicando o sacrifício animal, embora esteja em aberto do que ocorria em tais ritos.

O estudo do capítulo seis (Os deuses dos mortos) centra-se no submundo e a relação dos deuses com ele. Odim, uma das maiores divindades nórdicas, possui um olho só, hábil, talentoso em magia, mudava de forma e podia consultar os mortos, sabia os encantamentos para falar com pessoas enforcadas, foi ele também o inventor, segundo alguns poemas, das letras rúnicas, e em determinados momentos era ele a própria vítima de seus ritos, como ser pendurado de cabeça para baixo em árvores, como atestado no poema Hávamál, em que ele ficou dependurado em Yggdrasill. No poema Baldrs Draumar, Odim força uma vidente morta a falar. O exemplo das semelhanças apresentadas aqui, Wodan equivale a Mercúrio em Roma e também a Odim, e Mercúrio, segundo os mitos de Roma, era um psicopompo, ou seja, um guia das almas ao submundo, assim como Hermes, Caronte, Apolo e Orfeu. Sua ligação ao submundo é também indicada pelo seu universo em questão, tanto Odim como os xamãs sempre eram acompanhados por dois corvos em suas cabeças, Sleipnir, seu cavalo de oito pernas conhecia o caminho que levava aos mortos e Yggdrasill poderia ser considerado o centro da cosmologia xamã. No poema Grímnismál, existe uma descrição de Valhala; um palácio com escudos e cota de malha, guarnecido com centenas de portas, que os guerreiros banqueteavam carne de porco e hidromel. Na canção de morte de Ragnar, Lodbrók:
(...) Ao Esirs me darão as boas-vindas. A morte vem sem lamentação... Parto ansioso. Os Dísir me chamam para casa, aqueles que Odim envia até mim dos palácios do senhor dos Hostes. Alegremente, beberei cerveja no assento de honra dos Esirs. Os dias de minha vida acabaram. Eu morro rindo. (p. 127).

 A ida a Valhala era por sacrifício ou morte violenta em batalha, as mulheres poderiam também entrar, sendo esfaqueadas ou estranguladas. No poema Flateyjarbók, era comum as esposas dos homens falecidos serem mortas na Suécia por volta do século dez. Em outro poema, Qrvar-Odds Saga, homens e mulheres entram em Valhala por morte violenta, em Ynglinga Saga, todos os queimados ficam com Odim, explicado por um rito dele. Quem controlava Valhala era Odim e segundo aponta Davidson, Valhala não era um brilhante paraíso de guerreiros, em Flateyjarbók, os relacionamentos entre mortos e vivos era hostil e no poema Vafprudnimál, indica que em Valhala a batalha era eterna. Sentar no abrigo funerário traria sabedoria para quem tivesse coragem como atestado no poema Helgakuda, que a princesa dinamarquesa Sigrun entra no abrigo de seu marido morto e o abraça. Cremações e inumações eram sempre vinculadas ao deus Tor que possuía um grande admirador, Thorolf de Most, que ao chegar à Islândia construiu o templo de Tor. Dragões cuspidores de fogo, segundo a autora, tinham pouca importância no universo viking, no poema Beowulf, retrata detalhadamente a briga e morte entre o personagem Beowulf e o dragão.

No sétimo capítulo (Os deuses enigmáticos) são destacados vários deuses, alguns caídos no esquecimento. Os germanos acreditavam em divindades gêmeas, que em certa época era um padrão comum em várias mitologias, como em Rômulo e Remo, Aerik e Eirek na Suécia, Raos e Raptos aos Vândalos e Ibor e Aio aos Lombardos. No poema Lokasenna, destaca-se o deus Bragi da poesia (de Bragarmál que significa dicção poética), que pode ser comparado a Odim, pela sua barba longa ou taça de líder, sua esposa, Iduna, guardava maçãs da imortalidade que os deuses se alimentavam, sendo a maçã da fertilidade uma ideia tanto celta como viking. Odim conservou a cabeça do deus Mimir e a consultava em momentos de perplexidade e perigo, sendo que Mimir e Hoenir foram deuses que caíram no esquecimento popular da época. Heindall, em que pese às dificuldades de encaixá-lo na categoria de deus, devido a sua complexidade, segundo o poema Edda; dormia entre os casais e lhes dá três filhos[5]. Snorri aponta Loki o deus de maior destaque, não sendo nem bom ou mau, mas manhoso e traquina que perverso. Embora associado no cristianismo ao diabo e ligado aos elementos negros do mundo mítico do norte, Loki era um personagem na mitologia nórdica de muita sociabilidade, como Tor e Odim. Variava de atos; como ter matado Baldur[6] ou ajudado Tor a recuperar seu martelo vestindo-o de noiva, outro ato de destaque era mudar de forma, certa vez, atraiu o cavalo do gigante e deu a luz ao cavalo Sleipnir de Odim. Outro deus, Trickster, possuía semelhanças com Loki. A autora finaliza o texto com uma critica ao autor sueco contemporâneo John Bronsted, que afirmaria que os poemas de Saxo não seriam dignos de estudo.

O último capítulo (O começo e o fim) aprofunda do mundo dos deuses escandinavos. Segundo o poeta Snorri, os deuses vikings possuíam um lugar para morar, assim como no Olimpo na Grécia Antiga. Nele existia uma gigantesca árvore, chamada Yggdrasill. Não se sabe ao certo o que pode significar seu nome, mas quase certo que possui ligação com o nome do deus Odim, que possuía um assento na árvore, Hlidskjálf, do qual poderia ver todos os mundos. Yggdrasill é um símbolo de fertilidade e segundo Snorri, ela dá frutos que podem curar as doenças. No poema Voluspa, está escrito que no começo só tinha Ginnungagap, um grande vazio, com potencial de criação, o fim do mundo se daria por muitos eventos, a começar pelo inverno intenso de três dias seguidos. No poema Eiríksmal, ocorre à libertação dos mortos. Em paralelo a essas ideias, no fim da era viking, destaca-se a destruição do grande templo pagão de Uppsala na Suécia. Os mitos celtas se assemelham a essas ideias, e a autora destaca a semelhança com o Juízo Final do cristianismo. Mais semelhanças são destacadas, como a semelhança das erupções vulcânicas da Islândia e os chamados demônios dos vulcões, em que pese que fossem comuns as inundações duplas nesta ilha, de larva quente e água.

A autora conclui o livro, destacando os ricos simbolismos, como das estradas, pontes, buracos e cavernas que levariam ao submundo, as crenças populares de sociedades isoladas e os deuses, um pequeno grupo que preferia morrer a abrir mão de seus valores. Os mitos segundo Davidson, são as histórias dos indivíduos e suas reações uns aos outros (p. 185) e neles, os mistérios do subconsciente são plenamente reconhecidos. O próprio Snorri Stulurson, segundo a autora, fazia parte do espírito dos próprios mitos. Na nova religião que estava alcançando os reinos das antigas religiões pagãs, existiam conflitos, como a disputa de cultos entre os deuses da guerra e fertilidade. A autora finaliza apontando que estudar as forças cristãs da nova religião geraria outro livro, mas o esforço para explicar as antigas religiões e seus povos foi brilhantemente elucidado em sua obra.

Em suma, um livro, um dos poucos disponíveis no mercado nacional que reúne e discute das religiões e mitos do Norte da Europa antes da entrada efetiva do cristianismo e que através deles, busca uma compreensão da mente humana. O livro peca na tradução, algumas vezes confusa ao traduzir ao português os nomes escandinavos.



[1] Davidson aponta o ano de 875, embora o primeiro ataque tenha ocorrido em 793.
[2] Existe consenso entre a maioria dos historiadores que o fim da era viking se deu na conversão dos povos vikings ao cristianismo, ao abandonarem suas antigas crenças pagãs.
[3] Segundo o relato, Fenris era tão perigoso que foram feitas correntes por coisas tão secretas e impalpáveis do mundo para segurá-lo, como raízes de uma montanha, o barulho de um gato em movimento e a respiração de um peixe (p. 26).
[4] Tor é também chamado de filho da Terra, sendo essa considerada sua mãe.
[5] , Segundo Edda, o primeiro viraria um servo rude, o segundo um fazendeiro esforçado e o terceiro um com ancestralidade nobre.
[6] Os poetas Saxo e Snorri possuíam versões de Baldur em certos pontos diferentes.