domingo, 22 de abril de 2012

Resenha: MATOS, Maria Izilda Santos de. A cidade, a noite e o cronista: São Paulo e Adoniran Barbosa. São Paulo: EDUSC. 2007.





São Paulo está muito maltratada. É muito cimento. Essa cidade já perdeu todo o sentido: noites boas, boas amizades, ambientes bons. Pode parecer coisa de velho ficar lembrando o passado, mas aqui a gente podia ir a qual lugar com a patroa, a namorada ou a irmã e sempre encontrava respeito. Mas São Paulo sempre resiste, apesar de tudo.
Adoniran Barbosa


A AUTORA
Maria Izilda Santos de Matos é Mestre e Doutora pela Universidade de São Paulo (USP), professora das faculdades Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Mackenzie.[1] Autora de vários livros[2] e estudos sobre o cotidiano, gênero e da cidade de São Paulo.

A OBRA
Dividida em três partes, a obra é prefaciada pela professora Dra. Yvone Dias Avelino[3], que apresenta a teia de relações da obra de Matos, como as tensões, o criar e recriar paisagens (inclusive sonoras), tensões, disputas, sensibilidades e representações da década de 1950, chamada da década dos anos dourados. Na apresentação da obra, a autora fala da pesquisa que originou essa obra, do aprendizado no processo de realização do trabalho (que durou uma década) e das inquietações e questionamentos.

No primeiro capítulo, Matos esclarece sobre as mudanças que a história passou como ocasionado pela crise dos paradigmas, que fez com que a história se abrisse para novas formas de pesquisa[4], como nas transformações da sociedade, funcionamento da família, papel da disciplina e mulheres, fatos, corpos[5], gestos e sensibilidades, entendido como tempo de mudanças e permanências. A autora afirma que “grande parte dos segredos está encoberto por evidências inexploradas ”.[6] Nisso, a cidade (com sua praça, rua, bairro e praia) que antes era um palco da história entra como um campo de tensão, observado nos discursos médico e político, ela também pode ser entendida como um território de múltiplas experiências sensoriais e de paisagens sonoras, nos sons da urbe em movimento. A autora levanta questões, como a falta de observação das tensões e noções do privado e público, a relação entre o pessoal e o político, a experiência, permanência, os poucos estudos da produção musical, vivenciadas de formas diferentes:
Para além dessas dimensões o corpo desenvolve percepções e sensoriedades (visão, olfato, tato, audição, gustação), canais culturais de comunicação (movimentos, expressões, gestos, linguagens), usos e práticas e sensibilidades (dor, esperança, amor, saudades etc.), que tornam o corpo uma âncora de emoções, com formas, necessidades, funções físicas, sensações e sensibilidades reconhecidas como habitus[7].

Apesar do ponto de vista medieval de que a noite não era bem vista e que deveria ser reservada ao descanso, permanecia viva apesar das mudanças na esfera paulista. A boemia, não entendida como um todo fechado, se mescla com a noite paulistana, que tinha regras diferentes do período diurno.[8]

Na segunda parte da obra a autora apresenta alguns dados, como as inúmeras transformações do século passado, a mudança da maioria da população mundial dos campos para cidades como São Paulo. A clássica divisão da história paulista em quatro períodos[9] serve de referência quanto às mudanças, como a representação do desbravamento das fronteiras pelas bandeiras, os trilhos de trem que cortaram a cidade no sentido sudeste - noroeste, considerados como um vetor modernizador num processo que normalmente era mais espontâneo que organizado. A cidade ganha feições em seus bairros: na zona leste ficam as partes mais baixas, úmidas e pantanosas, no centro novo um acanhado burgo onde se encontra a Academia de Direito no Largo São Francisco, os bairros operários como Mooca, Brás, Pari, Belém, Tatuapé, Bom Retiro, Barra Funda, Água Branca e Lapa, a Praça da Sé em sua demorada remodelação. O embelezamento da cidade começa por volta de 1910 com a proposta de criar um centro moderno (eliminando os indesejáveis dessas áreas). As transformações são múltiplas em um curto espaço de tempo e o surto cafeeiro aumenta sensivelmente a população paulista, sendo que as indústrias são criadas a sombra dos cafezais. A Primeira Guerra Mundial bloqueou a alta rotatividade dos operários e por outro lado, possibilitou o uso de todo potencial da indústria paulista e frente a essas mudanças, o patronato também se organiza, assim como alguns trabalhadores optaram por trabalhos como o não assalariado. Nos pequenos comércios o que importa é cativar clientes, destacando o papel das mulheres. A rotina de trabalhadores era muito árdua, com constantes informações de abusos de seus patrões. Em 1920 começa a verticalização do centro novo, nas décadas de 1930 a 1940 a cidade do café industrializa-se, na década de 1950 ela cresce vertiginosamente (impulsionada no governo industrial de Juscelino Kubitschek), como entendido na ideia “da cidade de um edifício por hora”, são criados vários departamentos, como cultura, higiene, esportes, saúde, fazenda etc. O “plano avenidas” vira um símbolo, são criados também novas lojas, galerias, faculdades, cinemas, teatros etc, gerando transformações culturais, resistência e inconformismo, sendo que a autora aponta para mais de três milhões de pessoas que viviam em profundo contraste a essas mudanças, como as duas centenas de famílias retiradas da região que seria transformada no parque do Ibirapuera. Em 1951 é criada a comissão responsável pela organização da celebração do 4º Centenário da cidade, em 1954 na celebração é inventada a “paulistaneidade” [10]. É difundida a ideia do progresso vinculada a trabalho e produtividade. Na inauguração da Estação da Luz, considerada a segunda fundação da cidade, na busca do moderno o coração é o centro:
O coração de São Paulo pulsa os sons do punk rock e do hip-hop (cuja prática na estação de metrô São Bento ajudou na juventude marginalizada da periferia a buscar sua identidade), dos congestionamentos, das buzinas a esmo, da tensão da espera, dos resmungos e da impaciência.[11]

Na névoa e luz dos lampiões, ocorria no centro modernizante à vida agitada e noturna; lazer, teatro, bordéis, bares, cinemas, bibliotecas e casarões freqüentados por artistas, advogados, jornalistas, intelectuais, médicos e operários, em meio à conjuntura da esperança no pós-guerra[12], as mudanças no país e o Estado Novo. O centro apresentava melhoramentos, mas expulsava os populares para a periferia, como observado na região da Rua dos Andradas, Gusmões e Vitória (prostituição) e Praça da República e Largo do Arouche (homossexuais), tendo nisso muitas representações.[13]

A terceira e última parte da obra inicia na era de ouro do rádio (entre 1930-1950). Um meio muito popular de comunicação, que veiculava jornais, novelas, esporte, programas humorísticos, religião etc, além de novos tipos de samba e músicas internacionais[14] (destaque para a Rádio Record e seu engajamento para a Revolução Constitucionalista de 1932). O carnaval é institucionalizado pelo estado em 1930. A autora apresenta Adoniran Barbosa, nascido em 1910 em meio à cultura italiana, inicialmente atuando como varredor, tecelão, pintor, encanador, balconista, garçom entre outras funções. Fez sucesso com programas de humor no rádio; o programa Histórias da Maloca ficou 10 anos no ar (1953-1963). Adoniran Barbosa possuía muita afinidade com camadas populares, o que explica boa parte de seu sucesso. Em 1957 estreou na televisão, mas sem sucesso, participou também de filmes, como Candinho (1954) atuando junto com Mazzaropi. Sua última aparição foi em 1982, em um festival de música no Rio de Janeiro. Fez também sucesso com músicas como Saudosa maloca (1951) que representava tensões do cotidiano, Trem das onze (1964) possivelmente foi a música de maior repercussão, fez músicas polêmicas e censuradas como Aqui Gerarda (1959). Apesar da longa carreira só gravou seu primeiro LP aos 64 anos de idade e 39 de carreira[15]. Em sua vivência cotidiana, Adoniran Barbosa sentia as sensibilidades ao caminhar, conversar, ouvir, interagir e atentar sobre o seu mundo: músicas como Praça da Sé e Viaduto Santa Efigênia nos mostram as tensões da época, assim como o cotidiano dos homens e mulheres de suas apresentações;
[...] O que nas canções também permite é questionar as afirmações de que todos se incorporam à modernidade, destacando as múltiplas tensões, subjetivações, apropriações, reapropriações, desvios e recriações que fazem parte desse processo.[16]

Nas considerações finais, Matos destaca que na cidade convivem solidariedades, conflitos, tensões sem identidade única e construção de movimentos sociais. As canções, como de Adoniran Barbosa, rastreiam a cidade e ele ao contrário das mudanças que São Paulo recebia, não acabava com a cidade:
Adoniran foi generoso o suficiente para expor as sensações, foi revelador de sentimentos e sensibilidades, testemunha das emoções e depositário da memória. Fez, também, irreverente e provocativo discurso da denúncia, estabelecendo uma cumplicidade entre seus ouvintes.[17]

Em suma, esse estudo de Maria Izilda Santos de Matos explora de forma muito minuciosa e rica, a visão de mundo de pessoas e grupos que antes e por motivos muito variáveis, possuíam sobre uma São Paulo em transformação, apresentando e comparando dois principais pontos, por um lado o discurso de uma cidade que cresce apontando para o progresso e convívio harmonioso, e o outro discurso, observado no cotidiano, como nas próprias músicas que Adoniran cantava, apresentando as aventuras noturnas dos povos paulistas, nas muitas manifestações existentes entre aqueles que pouco aparecia nos discursos. A obra, assim como afirmou Yvone Avelino, possui um papel de destaque na história da cidade de São Paulo, pois traz a tona vozes que antes não eram estudadas, abrindo caminho quanto a uma história de outras esferas, de lugares, épocas e sujeitos.


BIBLIOGRAFIA

● BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: editora da UNESP. 1992.
HISTÓRIA VIVA; GRANDES TEMAS. Nº 7. São Paulo: Duetto. 2010.
MATOS, Maria Izilda Santos de. A cidade, a noite e o cronista: São Paulo e Adoniran Barbosa. São Paulo: EDUSC. 2007.
______. Âncora de Emoções: Corpos, subjetividades e sensibilidades. São Paulo: EDUSC. 2005.
PERSON, Eliane. O traço e a trama dos anos 50 por Carlos Estevão. Dissertação de Mestrado em História. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2011.
SOLLER, Maria Angélica; MATOS, Maria Izilda Santos de (orgs.). O Imaginário em debate. São Paulo: Olho d’água. 1998.


[1] Disponível em: < http://lattes.cnpq.br/3818957885297532 >. Acessado em: 3.9.2011.
[2] História e Deslocamentos: os portugueses (2008); Ancora de Emoções (2005), Gênero e Terceiro Setor (2005), Dolores Duran: Experiências Boêmias em Copacabana nos anos 50 (2002), Cotidiano e Cultura: história, cidade e trabalho (2002), Meu lar é o botequim (2002), Por uma história das mulheres (2000), Melodia e Sintonia: o masculino, o feminino e suas relações em Lupicínio Rodrigues (1999), A Cidade em debate (1999), O imaginário em debate (1998).
[3] Disponível em: < http://lattes.cnpq.br/5274413688512181 >. Acessado em: 3.9.2011.
[4] Como afirma Burke, essa expansão se dá a uma velocidade vertiginosa. BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas perspectivas. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: editora da UNESP. 1992. p. 7.
[5] MATOS, Maria Izilda de Santos. Âncora de Emoções: Corpos, subjetividades e sensibilidades. São Paulo: EDUSC. 2005.
[6] MATOS, Maria Izilda Santos de. A cidade, a noite e o cronista: São Paulo e Adoniran Barbosa. São Paulo: EDUSC. 2007. p. 21.
[7] MATOS, Maria Izilda Santos de. Op cit. p. 35.
[8] SOLLER, Maria Angélica; MATOS, Maria Izilda Santos de (orgs.). O Imaginário em debate. São Paulo: Olho d’água. 1998. p. 89.
[9] A fundação da vila (1554), a Cidade do café (1870), a Metrópole industrial (1920) e Megalópole (2000). MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit. p. 44.
[10] Por paulistaneidade pode-se entender as representações e discursos de São Paulo como a maior cidade do Brasil, terra de destemidos bandeirantes, a cidade como o vagão que puxa o Brasil etc.
[11] MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit. p. 89.
[12] MIQUEL, Pierre. Euforia e incerteza. In: HISTÓRIA VIVA, GRANDES TEMAS. Nº 7. São Paulo: Duetto. 2010. p. 7-11.
[13] PERSON, Eliane. O traço e a trama dos anos 50 por Carlos Estevão. Dissertação de Mestrado em História. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2011. p. 38.
[14] SOLLER, Maria Angélica; MATOS, Maria Izilda Santos de (orgs.). O Imaginário em debate. São Paulo: Olho d’água. 1998. p. 30.
[15] MATOS, Maria Izilda Santos de. A cidade, a noite e o cronista: São Paulo e Adoniran Barbosa. São Paulo: EDUSC. 2007. p. 138.
[16] MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit. p. 154.
[17] MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit. p. 165.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Resenha: RIDENTI, Marcelo Siqueira. O Fantasma da Revolução Brasileira. 2º Ed. Revista e Ampliada. São Paulo: Editora UNESP. 2010. 324 p.



“Quem dá o primeiro tiro, carrega o resto”
Carlos Marighella


     Lançada no fim da década de 1980 e originaria dos seis anos de produção da tese de doutorado de Marcelo Ridenti (UNICAMP), a obra O Fantasma da Revolução Brasileira é um importante estudo acerca de um tema pouco explorado pela academia, qual seja os grupos de esquerda que se formaram no Brasil nas décadas de 1960 e 1970 na esfera dos eventos da Ditadura Militar Brasileira (1964-1985). Jacob Gorender (USP), que participou desses eventos diretamente e ajudou Ridenti em sua obra, no prefácio faz uma análise da obra. É também definido pelo autor o acerto de contas com o “fantasma da revolução brasileira” que a sua obra produz, podendo-se entender esse fantasma como as derrotas e erros (p. 13) que as esquerdas enfrentavam, iniciadas segundo o autor pela passividade do PCB[1] nos eventos que se sucederam a Ditadura Militar e a proposta de revolução não armada, que originou sua perda de hegemonia e criaram-se várias facções.

     No primeiro capítulo, A Constelação da Esquerda Brasileira nos anos 1960 e 1970, a ênfase encontra-se nos vários grupos, armados ou não, dos movimentos sociais de esquerda. O autor enfatiza o PCB, que embora ilegal no início da década de 1960 estava em seu apogeu e era líder do movimento das esquerdas; nele existia a ideia do setor burguês-latifundiário no comando da sociedade partindo-se da ideia dos resquícios de um feudalismo que entravavam o país e que deveria ser superado. Mas o autor aponta alguns problemas, como a via pacífica ao socialismo do PCB (p. 46) e seu caráter burocratizante (p. 41). Nessa conjuntura o partidão sofreu muitas sangrias; como o ALN fundado por Carlos Marighella, um dos mais conhecidos membros do PCB e outros grupos que se formaram.[2] O PC do B que fez a única investida no campo, a Guerrilha do Araguaia[3] e o MR8 que foi um grupo criado por dissidências estudantis (p. 30) frente à divergência de vários outros grupos (p. 37). Questões como a relação entre a burguesia brasileira, forças armadas, latifundiários e o capital internacional pouco foi explorado pelos grupos da esquerda. No início de 1964, os grupos de esquerda pouco produziram de documentos, devido ao seu caráter mais ativo, mesmo sendo políticos e armados ao mesmo tempo (p. 40) atestado isso, como na produção intelectual de Jamil Rodrigues[4], teórico do VPR. Marighella em sua vida ativa nos movimentos de esquerda trouxe várias experiências ao ALN (grupo autodenominado como anarco-militarista) como em sua presença em Cuba em 1967. Questionado sobre a função dos revolucionários, Marighella respondeu “que o dever de todo revolucionário é fazer revolução” (p. 45) ou na ideia de “quem dá o primeiro tiro carrega o resto”. As divergências variavam em muitos graus entre os grupos; como os maoistas, guevaristas ou foquistas[5], se usariam a massa popular (ALA, POC, PRT, VAR, PCBR, MR8) ou sem eles (VPR, ALN, REDE). Ações de expropriação, pouco usuais no começo do golpe de 1964 eram mais comuns após esse período, como assaltos a bancos, sequestros, sabotagens, terrorismo e “guerra de nervos”. 

     No segundo capítulo, A Canção do homem enquanto seu Lobo não vem, Ridenti aprofunda sobre as artes e os seus artistas nas agitadas décadas do golpe. A começar pela Passeata dos Cem Mil[6], em que estavam envolvidos muitos artistas; a relação existente entre eles e os grupos de esquerda era mutua, pois os próprios ajudavam financeiramente as organizações. No PCB estavam muitos artistas, mas deve-se destacar que nem todas as artes eram contestadoras. No contexto da Guerra Fria, as ideias das organizações armadas alcançavam outros ares, como prova o periódico Francês Le Temps Modernes. Podem-se destacar os CPC[7], Teatro de Arena, Cinema Novo, músicas como Caminhando de Geraldo Vandré (que simbolizava a luta de 1968), Viola Enluarada de Marcos e Paulo Sérgio Valle, Louco por ti América (homenagem a Che Guevara) e Apesar de Você de Chico Buarque. Filmes como San Michele aveva um gallo (1972), Barravento (1962), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha, livros como Quarup (1964) e Bar Don Juan (1971) de Antonio Callado contestavam, aos seus modos, a Ditadura Militar. O movimento estudantil teve uma participação que se deve destacar; o estudantado compunha em alguns grupos próximos a metade dos integrantes, tinham entre 25 a 30 anos, eram estudantes secundaristas ou universitários e existiam grupos como o FLN que era chamado de “jardim da infância dos grupos esquerdistas” (p. 117) devido à alta taxa de estudantes ativos nele, encastelado nisso, a UNE, portanto, tinha um papel de destaque em nossa sociedade, sendo a referência para os problemas da sociedade. O governo reprimiu após 1968 fortemente o movimento estudantil, como reduzindo os recursos as faculdades federais de 11% para 7% (p. 124). Militares (de baixa patente), religiosos, empresários e professores compunham também os grupos de luta das esquerdas, destes grupos os mais ativos eram provenientes de patamares mais baixos, como professores secundaristas ou os dominicanos, referência de ajuda aos estudantes (p. 150).
     No capítulo 3, Obscuros Heróis, sem vez e sem voz, são aprofundados a participação dos trabalhadores urbanos e rurais, girando em torno de 10% de participantes nos grupos. Fortemente reprimida, essa classe sofreu fortes intervenções do Estado, como no fechamento de 563 sindicatos entre 1964 e 1970 (p. 166), a peça de teatro “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” de Vianinha e Ferreira Gullar, ironizava a situação da época. O grupo de Osasco era considerado uma “Meca das esquerdas” (p. 183), formado por metalúrgicos, operários, operadores e estudantes. As mulheres compunham aproximadamente 18% dos grupos, e segundo o autor sua participação seria vencer anos de submissão (p. 198). Grandes análises, estratégias e táticas eram feitos sempre pelos homens (p. 201). No universo do campo, onde estava metade da população brasileira da época, os dados da BNM[8] quanto às mortes no campo não devem ser observados como absoluto, pois as distâncias e isolamento dificultam seu arquivamento, como ocorrido no massacre da Guerrilha do Araguaia que demorou mais de dois anos e três campanhas para serem derrotados no ano de 1974 (p. 226, 227).
     A vida dos militantes no pós 1969 e AI-5 é o tema do último capítulo, Luta, conspiração e morte. Os grupos de esquerda, principalmente no segundo semestre de 1969 foram fortemente perseguidos, nesse ambiente a clandestinidade viraria um fetiche (p. 246) e perdia-se o caráter político, pois os grupos armados eram cada vez mais marginalizados pela repressão. Existia dificuldade também na renovação dos grupos e os militantes cada vez mais dependiam dos grupos armados. A morte era cada vez mais próxima dos militantes, como nos relatos de Betinho que imaginava uma “revisão de tudo” (p. 252) ou a necessidade do recuo. A morte de Zé Roberto, atestado no bonito depoimento de Vera Lúcia Guimarães, é um exemplo de suicídio revolucionário (p. 266), tema muito explorado por Ridenti, que pode ser entendido entre os vários tipos de mortes, como até pela tortura. Os traidores, aqueles que desviavam da proposta revolucionária, como ações ambíguas ou a entrega de companheiros a polícia, poderiam ser mortos pelo grupo, conhecido isso como justiçamento (p. 270).
     Em suma, a obra O Fantasma da Revolução Brasileira destaca-se por iluminar acerca de áreas que não ofereciam estudos mais profundos de uma polêmica época do Brasil, a Ditadura Militar e os grupos de esquerda, que foram jogados para segundo plano, mas inteligentemente explorado nesta obra, contribuindo para os estudos dos grupos marginalizados e na História do Brasil.

BIBLIOGRAFIA
RIDENTI, Marcelo Siqueira. O Fantasma da Revolução Brasileira. 2º Ed. Revista e Ampliada. São Paulo: Editora UNESP. 2010.


[1] Partido Comunista Brasileiro, criado em 1922, também conhecido por “Partidão”.
[2] PC do B, PCR, ALA, MRT, PRT, MRN, MNR, MAR, RAN, FLN, MR-21, VPR, PORT, COLINA, VAR, DPR, POC, AP, POLOP e MR8 entre outros.
[3] Localizada na região Amazônica e ao longo do Rio Araguaia, esse conflito alcançou os atuais territórios do Pará, Goiás e Maranhão.
[4] Nome secreto do prof. Ladislaw Dowbor.
[5] Ideia a partir do Foco Revolucionário, começando a revolução sem o apoio inicial da população.
[6] Movimento contra a Ditadura Militar no Rio de Janeiro em 1968.
[7] Centros Populares de Cultura, criados em 1961
[8] Brasil Nunca Mais, criada em 1979 visando à abertura de documentos secretos do regime militar.




domingo, 12 de fevereiro de 2012

Resenha: FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. 666 p.



INTRODUÇÃO
O livro, produzido em 1993 e dividido em 12 partes, foi feito segundo argumenta Boris Fausto, para um público que compreende do universo do segundo grau (Ensino Médio), das universidades até um público letrado. Ele é dotado de cronologia histórica, glossário bibliográfico e índice onomástico. O autor fala que existe mais interesse por assuntos como a Ditadura Militar que das Capitanias Hereditárias e em certos momentos, como ele mesmo afirma, toma partido de alguns assuntos discutidos no livro. Ele afirma que
[...] Por isso mesmo, o que o leitor tem em mão não é a História do Brasil – tarefa pretensiosa e aliás impossível – mas uma História do Brasil, narrada e interpretada sinteticamente, na óptica de quem a escreveu.[1]

1. AS CAUSAS DA EXPANSÃO MARÍTIMA E A CHEGADA DOS PORTUGUESES AO BRASIL
Um assunto que aparece muito na escola é sobre os Descobrimentos. O autor afirma que a Europa no século 12 é uma região rural, no 13 começam a se definir as fronteiras e no 15 o mediterrâneo deixa de ser um “lago árabe”. Portugal é o primeiro a se destacar, considerado um país autônomo, reino unificado, voltado para fora e com ajuda de sua posição geográfica e arquitetura naval (a caravela é considerada a menina dos olhos de Portugal), destaque para o infante Dom Henrique. Nisso destaca-se a atuação estado/coroa na nova receita de expansão, considerado um projeto nacional. Os lusos se depararam com muitas situações, como a Etiópia que praticava um laço do cristianismo, as dificuldades das viagens e as dificuldades (de se transpor os Cabos de Bojador e da Boa Esperança), assim como as muitas versões da conquista de Ceuta e o simbolismo de 21 de Abril.

2. O BRASIL COLONIAL
A população ameríndia era de um modo em geral homogênea e os tupinambás, chamados de tupis, viam os brancos com poderes especiais.
[...] De qualquer forma, não há duvida de que, pelo alcance limitado de suas atividades e pela tecnologia rudimentar de que dispunham, estavam longe de produzir os efeitos devastadores da poluição dos rios com mercúrio, ou da derrubada de florestas com motosserras, características das atividades dos brancos nos dias de hoje.[2]

Na colônia (patrocinado por estado e igreja) a população era mestiça. Destaca-se a extração do Pau-Brasil. Nas várias negociações que ocorreram resultou no Tratado de Tordesilhas, pensando-se nos vários grupos que estavam em áreas portuguesas como os franceses. As Capitanias Hereditárias tinha uma origem feudal de colonização e no Brasil (assim como América Latina) fornecia gêneros alimentícios e minérios, baseado na grande propriedade, empresa comercial e trabalho compulsório. De começo o Brasil só correspondia a 2% das receitas de Portugal contra 26% da Índia. Os índios eram incompatíveis com o trabalho intenso e os jesuítas os ensinavam a serem “bons cristãos”, mas
Os índios resistiram às varias formas de sujeição, pela guerra, pela fuga, pela recusa ao trabalho compulsório. Em termos comparativos, as populações indígenas tinham melhores condições de resistir do que os escravos africanos.[3]

Sobre a escravidão, o autor aponta para a importância do Quilombo dos Palmares. Nem a Coroa portuguesa ou a Igreja se opunham a escravidão negra. O escravo era considerado juridicamente uma coisa, que em média não chegava a 30 anos em 1850. Portugal foi pioneiro na expansão marítima, mas não no comércio. Ademais, o estado luso era considerado absolutista e o autor prefere usar a expressão coroa a rei, pensando no conjunto que no individuo. Os vice-reis na colônia tinham extensas atribuições e as câmaras municipais sobrevivem até a atualidade, apesar das mudanças. Em oposição a isso os chamados “puros de sangue” eram uma pequena minoria, aos mulatos e criolos cabiam as tarefas domésticas, mas era comum todos possuírem o desejo de terem escravos. Os títulos de nobreza não eram hereditários e existia aproximação e atrito entre os grandes proprietários rurais. A maioria da população vivia na colônia e entre as regiões havia muita diferença, sendo Salvador a maior entre as poucas cidades que existiam. Por volta de 1530/40 é estabelecido o comércio da cana-de-açúcar no Brasil. Segundo Fausto
Os senhores de engenho não viviam isolados na plantation. Pela própria natureza e localização de sua atividade, geralmente próxima de um porto, estavam em contato com o mundo urbano e com um olho no mercado internacional. Afinal de contas, sua riqueza dependia não só da capacidade de tocar o negocio no Brasil mas dos preços fixados do outro lado do Atlântico, nos grandes centros importadores.[4]

Em 1630 em Olinda e 1624 em Salvador os holandeses invadem o Brasil e o autor lança algumas questões e dúvidas sobre o governo de Maurício de Nassau. No século 18 a pecuária penetra o centro do Brasil e no século 19 ocorre o declínio do açúcar. Destacam-se as figuras de padre Antonio Vieira que limitou o abuso contra os índios, e o frei Vicente de Salvador, que dizia que os portugueses “arranhavam as costas como caranguejos”.[5] A Companhia de Jesus é considerada um estado dentro do estado. Nas bandeiras (expedições com milhares de índios) era nítido como os portugueses adquiriram hábitos e costumes indígenas, já nessa época ocorria a exaltação a figura dos bandeirantes e cabe lembrar que nem todas tinham ligação com administração portuguesa.
[...] disso resultou a guerra civil conhecida como Guerra dos Emboadas (1708-1709), opondo paulistas de um lado, estrangeiros e baianos de outro. Os paulistas não tiveram êxito na sua pretensão, mas conseguiram que se criasse a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, separada do Rio de Janeiro (1709), e a elevação da Vila de São Paulo a categoria de cidade (1711). Em 1720, Minas Gerais se tornaria uma capitania separada.[6]

O ouro aliviava os problemas portugueses (Portugal no século 18 dependia da Inglaterra) e dele saíram negociantes, mineradores, advogados e padres, sendo essa sociedade mais aberta e complexa que a do açúcar. O mineiro-escravo tinha em torno de 7 a 12 anos de atividade. Alcançam a colônia a influência de vários eventos europeus como o pensamento ilustrado e iluminismo, teorias como da mão invisível (que harmoniza a sociedade) e as revoluções francesa, americana e inglesa. Disso resultaram eventos na colônia como a Inconfidência Mineira, lembrando o autor que metade dos estudantes da Universidade de Coimbra eram mineiros, sendo a figura de Tiradentes um caso a parte, destacam-se também a Conjuração dos Alfaiates e a Insurreição de São Domingos (no Haiti). A vinda da família real portuguesa no Brasil muda as relações da colônia, como na liberação de impressão do primeiro jornal, mas não deixando de serem portugueses no Brasil. De um forte antilusitanismo no nordeste brasileiro resultam em eventos como a Revolução Pernambucana. Em 1820 Portugal entra em crise e nessa época destaca-se a figura de José Bonifácio, arquiteto da independência do Brasil.

3. O PRIMEIRO REINADO 1822-1831
Existiam dois grupos principais interessados na independência do Brasil; de um lado brasileiros favoráveis e do outro, tropas portuguesas. Os principais conflitos se deram no sul da Brasil e na Bahia, destacando-se a figura do inglês Lord Cochrane, que atuou na independência do Brasil, Chile e Peru. O Brasil arcou com uma multa portuguesa da Inglaterra no processo da independência. De início a província Cisplatina lutou contra Portugal e depois contra o Brasil (ele e a Argentina tiveram muitos prejuízos) para virar o futuro Uruguai (1825), o autor destaca que
[...] Mais do que isso, a emancipação do Brasil não resultou em maiores alterações da ordem social e econômica, ou da forma de governo. Exemplo único na América Latina, o Brasil ficou sendo uma monarquia entre repúblicas.[7]

Entre 1822 e 1840 ocorre forte movimentação política, com a primeira constituição feita em 1824, destacando-se que nela se instituía o voto indireto e censitário. O imperador D. Pedro I evitava tendências democráticas e desagregadoras da nação (evitando eventos como a Confederação do Equador).

4. A REGÊNCIA 1831-1840
Sobre a regência o autor destaca que
[...] Naqueles anos, esteve em jogo a unidade territorial do Brasil, e o centro do debate político foi dominado pelos temas da centralização ou descentralização do poder, do grau de autonomia das províncias e da organização das Forças Armadas.[8]

Entre os dois grupos políticos da regência, existiam os exaltados que defendiam a federação e os absolutistas que queriam a volta de D. Pedro I. O poder moderador não poderia ser exercido na regência. Destaca-se a posição do RS e sua relação com o mundo platino e as várias revoltas no norte e nordeste, como a Revolta dos Cabanos.

5. O SEGUNDO REINADO
D. Pedro II assume o poder aos 14 anos de idade em 1840. Seu governo imperial não tinha uma sólida base de apoio social. Nessa época ocorreram várias revoluções democráticas na Europa, como em 1848. Existiam dois partidos imperiais; o conservador e o liberal, embora na citação de Holanda Cavalcanti mostre como eram parecidos; “Nada se assemelha mais a um saquarema do que um luzia no poder”. O autor aponta que
Lembremos por último que, por volta de 1870, principalmente em São Paulo, as transformações socioeconômicas haviam gerado uma classe baseada na produção cafeeira, e essa classe assumiu com toda a conseqüência um dos aspectos principais da descentralização: a defesa da autonomia provincial.[9]

O café no Brasil foi introduzido em 1727 e destaca-se a importância do Vale do Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro). Nessa região a terra roxa possuía alta produtividade. Nessa conjuntura o autor aponta para a figura do comissário, posicionado entre produtores e exportadores; que entre os maiores compradores tinha a Espanha, Alemanha, Países Baixos e Escandinávia. Ocorre a decadência do nordeste e fortalecimento do centro-sul no século 19. Nessa época, diferente do que se divulgava, nem tudo era resolvido pelos interesses ingleses. A Lei de Terras de 1850 substitui a escravidão e incentiva a compra de escravos no mercado interno. Destaca-se a figura de Barão de Mauá, falido em 1875, mas deixando sua marca como a primeira estrada de ferro do Brasil (Mauá-Fragoso em 1854). O oeste paulista teve grande importância no café em parceria com a concessionária inglesa São Paulo Railway (SPR) de 1868. Destaca-se o preconceito ao trabalhador brasileiro pelos grandes proprietários. A crise na Itália no século 19 com a unificação e transformações capitalistas atrai trabalhadores ao Brasil. Entre 1864 a 1870 ocorre a Guerra do Paraguai, evento que pode ser pensado como um processo de formação dos estados e não somente um patrocínio inglês. Existem no Paraguai na época 64 mil soldados no exército (no Brasil 18 mil), e desses destaca-se a figura de Conde D’eu que assume o exército nacional, que vai se consolidando com o passar da guerra. O autor chama a atenção para a inquietação da província do RS na América latina
O Paraguai saiu arrasado do conflito, perdendo partes de seu território para o Brasil e a argentina e seu próprio futuro. O processo de modernização tornou-se coisa do passado, e o país se converteu em um exportador de produtos de pouca importância. Os cálculos mais confiáveis indicam que metade da população paraguaia morreu, caindo de aproximadamente 406 mil habitantes, em 1864, para 231 mil em 1872. A maioria dos sobreviventes era de velhos, mulheres e crianças.[10]

O fim da escravidão ocorre em 1888; o CE o faz em 1884. Os ex-escravos tinham vários destinos e a abolição no geral não melhorou a vida deles. Nessa época também existiam vários conflitos entre Estado e Igreja, como a proibição de maçons nas irmandades religiosas. Existia uma associação entre as províncias de SP e RS, assim como o interesse dos cafeicultores para derrubar a Monarquia no confuso episódio sobre 15 de novembro. Alguns dados sociais do fim do Império; a população salta de 9 milhões em 1872 para 14 milhões em 1890 em uma enorme desigualdade social. Em 1872 a economia era dividida em 80% para agricultura[11]. O RJ era o único grande centro urbano e MG tinha a maior população e escravos. A Guerra Civil dos Estados Unidos[12] aumenta o volume de exportações.

6. A PRIMEIRA REPÚBLICA 1889-1930
            Vários grupos, principalmente de SP, MG e RS, disputavam o poder na nova república, destacando-se o exército (mais ligado ano novo regime) e a marinha (mais ligada à monarquia). A Proclamação da República é recebida com entusiasmo na Argentina e aproxima os Estados Unidos, em uma época que o eixo mundial vai de Londres a Washington. As províncias viram estados e ganham maior autonomia, importante para SP e a produção de café. Na constituição de 1891 são anexados os três poderes e o autor destaca o encilhamento, tipo de febre de negócios e especulação da época. As forças armadas não são grupos totalmente unidos. Destaca-se uma guerra civil na Revolução Federalista, a Guerra de Canudos e a política dos paulistas a frente da nação. A casa Rothischild é um dos financiadores da independência. Destaca-se a influência do chamado bloco do nordeste, liberado pelo PE. A chamada república café-com-leite dura de 1898 a 1907 e o café responde por 72% das exportações. Chegam ao Brasil 3,8 milhões de imigrantes principalmente da Europa e Ásia, (deles 30% são italianos). SP recebe muitos imigrantes (de Portugal, Espanha e Itália principalmente) e em seu crescimento urbano observa-se o pioneirismo do desenvolvimento capitalista, diversificação agrícola e surto industrial. Essa indústria ultrapassa a do RJ entre 1920 e 1930. O Estado não foi um rival da industrialização, mas também não se interessou por desenvolvê-la. SP pode, em linhas gerais, ser entendido como um estado interessado no comércio ao exterior enquanto o RS está mais vinculado ao mercado interno. Destaca-se no CE o ciclo da borracha e a experiência da fordlândia no AM. Os serviços nas maiores cidades eram feitos por companhias estrangeiras. Destaca-se uma figura do CE
Outro é o do movimento que se formou em torno de Padre Cícero Romão Batista entre 1872 e 1924, tendo como centro a cidade cearense de Juazeiro. O padre começou reunindo fiéis para rezar e fazer promessas nos desastrosos períodos de seca. Logo ganhou fama de milagreiro e passou a reunir adeptos em número crescente. Estes passaram a residir em Juazeiro ou a visitá-lo em grandes romarias.
O Padre Cícero chocou-se com as autoridades da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, integrou-se no sistema coronelista. Ele se transformou em um misto de padre e coronel que se envolveu com suas forças militares, nas lutas políticas da região.[13]

Em SP predominava o anarco-sindicalismo, que no período de 1917 e 1920 gerou grandes greves, sendo que após essa data ocorre uma queda no movimento grevista, época também de eventos como a Revolução Russa (1917) e a criação do Partido Comunista do Brasil (1922). O autor aponta para as diferenças entre anarquistas e socialistas, esses últimos na esfera da influência de Marx. Destacam-se eventos como a Revolta do Forte de Copacabana em 1922, Revolução de 1924 e a Coluna Prestes, que percorreu 24 mil km e teve 1500 participantes até 1927; todos esses movimentos estavam na esfera do tenentismo (um movimento do exército) que eram contra a política do governo. O autor destaca que nele existia muita ação e pouca fala. Na mesma época ocorreu a Revolta da Chibata. Por fim, o prestígio do tenentismo (principalmente no nordeste), espelhado na figura do socialista revolucionário Luis Carlos Prestes, desembocou no contexto da Revolução de 1930, feita por vários grupos e resultando no governo Vargas.

7. O ESTADO GETULISTA 1930-1945
            Getúlio Vargas governou o Brasil por 19 anos e teve dois mandatos, indo de governo provisório, presidente eleito, voto indireto e ditador, além de sua figura de amigo e pai simbólico. Destaca-se em seu governo a associação Estado/Igreja, a política da centralização do café (como compra do café para segurar os preços, sendo estimado a destruição de 78 milhões de sacos de café), política trabalhista e controle sindical (para reprimir esforços organizatórios). Seu governo era considerado autoritário, mas não fascista. A educação, controlada de cima para baixo, no contexto do manifesto da Escola Nova (1933) trazia mudanças educacionais e as universidades – como a USP - eram iniciativa de Anísio Teixeira, consolidada nesse contexto de ampla discussão educacional. O Movimento de 1932 incluiu vários setores e a superioridade dos militares do governo contra os revoltosos do estado paulista (18 mil contra 8.500 em três meses de batalha) não resistiram, embora tenham conseguido alguns de seus objetivos. Em 1934 é feita uma nova constituição, semelhante à de Weimar, em uma época de formação de estados autoritários e totalitários, com destaque para o integralismo que tinha uma influência direta do fascismo e seu conhecido líder, Plínio Salgado; no Brasil teve de 100 mil a 200 mil membros em sua forte rivalidade com os comunistas. As forças armadas ficam mais fortes entre 1930 e 1945. Em 1934 ocorrem muitas greves operárias, em 1935 ocorre o levante de Natal[14], considerado um fracasso pelo autor. É fundada por Luís Carlos Prestes a ALN[15], e na mesma conjuntura é criada por Vargas a LSN.[16] Destaca-se o fracasso do plano COHEN. Integralistas cercam o Palácio Guanabara para assaltar Getúlio, fato que não conseguiram. O Estado Novo, iniciado em 1937, era composto pela burocracia civil mais a burguesia industrial, além de desejar a indústria de base. Destaca-se a figura do pelego, que defendia seus interesses e do estado, é criado o imposto sindical visando sua subordinação ao estado, é fundado o DIP[17] embora a imprensa conseguisse o burlar, e o Estado Novo atravessa a crise mundial, firmando acordo tanto com os Estados Unidos como a Alemanha (ao qual o Brasil rompe relações em 1938), em 1942 cinco navios do Brasil são afundados pela Alemanha, em 1944 a FEB entra na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em 1945 está contra o eixo e mantendo relações com a União Soviética, sendo isso mal visto pelos Estados Unidos e Reino Unido. Entre 1945 a 1964 existiam três partidos; UDN, PSD e PTB. O Brasil aumenta nesse período sua posição mundial; na agricultura entre 1929 e 1940 na agricultura mundial, a participação aumenta de 2% para 8%.

8. O PERÍODO DEMOCRÁTICO 1946-1964
            Vargas é o grande vitorioso de 1945, sendo eleito ao senado em cinco estados e a deputado federal em nove. Dutra é eleito em 1945 e o PCB é cassado em 1948. A sucessão presidencial começa a ocorrer no meio do segundo mandato de Dutra. A conjuntura de 1950 mostra Vargas e o chamado terceiro mundo no decorrer da Guerra Fria. Em 1953 Vargas coloca Jango no ministério do trabalho. O Governo Vargas não abandona a cafeicultura. A sua base de apoio é a massa trabalhadora. O autor destaca o simbolismo do suicídio de Vargas (24.8.1954)
            De fato, Getúlio ficaria na memória da massa trabalhadora como o homem que ouvira a voz dos “humildes” e fora responsável pela implantação da legislação trabalhista. Essa imagem é sem dúvida simplificadora e excessivamente concentrada em um homem, mas assim ocorreu, e isso deu alento aos herdeiros políticos do presidente.[18]

No governo de Juscelino Kubitschek, época de estabilidade política, desenvolvimento e ordem, vingaram a associação entre o capital público e privado. Seu Programa de Metas era consistido em 31 objetivos em 6 grupos; de 1957 a 1961 o PIB cresceu em média 7% ao ano, destacando-se a implantação da indústria automotiva pelo GEIA[19], considerado que a partir disso o Brasil virava a “civilização do automóvel”. Desde a Constituição de 1891 já se previa a necessidade de uma cidade central como Brasília. Em seu governo pouco se fala do sindicalismo. O autor destaca a visão negativa construída do FMI[20], e ressalta que em partes, essa visão tem mudado. Em 1959 após muita indecisão, Brasil rompe com o FMI, sendo isso bem visto. Nas eleições de 1960, Jânio Quadros é eleito com 48% dos votos; sendo feita a combinação Jan-Jan (Jânio Quadros e João Goulart, presidente e vice). Jânio era uma figura que desagradava a todos e não tinha uma base política de apoio; expressando-se isso nos eventos como na Condecoração a Che Guevara e a repercussão a Revolução Cubana. Sua renúncia ocorre em 25.8.1961, sendo até hoje ainda não bem esclarecida. Jango (presidente de linha moderada) em visita a China Comunista, tem que enfrentar a chamada “batalha da legalidade”, e após muitas dificuldades retorna ao Brasil e assume o poder em 1961 na base parlamentarista. Destaque em sua simpatia a vários movimentos, como das Ligas Camponesas (fundada por Francisco Julião em 1955) e Fausto usa a referência do filme Cabra marcado para morrer (1984) para um melhor entendimento da conjuntura. A Igreja nessa época estava dividida em vários grupos em uma época de forte contexto de pressões sociais, apresentando sua forte resistência aos grupos dominantes; em 1963 são registradas 172 greves (entre elas a greve dos 700 mil) e a Marcha da família com Deus pela liberdade (1964). Ocorre também rompimento das esquerdas no Brasil e União Soviética. Jango apresenta seu plano trienal. Destaca-se a base de ação de Brizola. Após essas dificuldades, um movimento iniciado pelo General Olímpio Mourão Filho, que já tinha participado do plano COHEN em 1937, gera no golpe de 1964, destituindo Jango da presidência e devolvendo o poder aos militares.

9. O REGIME MILITAR 1964-1985
            O Regime Militar governa por decretos chamados de atos institucionais (AI), embora o próprio regime não se dissesse autoritário. Os AI seriam uma forma de reforçar o poder executivo e limitar o congresso. O autor destaca que a imprensa estava relativamente aberta na época. A UNE é invadida e incendiada, a UNB é invadida, são cassados políticos como Jango, Jânio, Brizola e Juscelino. Destaca-se o grande poder do SNI[21]. O regime militar alegava que se devia conter a ameaça comunista. Em 1966 é decretado que o FGTS substituiria a estabilidade no emprego após 10 anos, sendo mais lucrativo para as empresas. A estabilização ocorreu, mas na base do sacrifício da sociedade. O AI nº 2 foi decretado pouco depois das eleições estaduais, visando o fim dos partidos políticos, existindo a partir de então apenas o MDB e ARENA. Em 1967 começa a produção da Constituição de 1967, dando mais poder ao Executivo. No governo de Costa e Silva é mudado todo o ministério. A oposição vai se articulando desde 1966, como expressado na figura do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara. Jango e Juscelino formam a Frente Ampla no Uruguai. Em 1968 ocorre a greve de Osasco, ano também de muitas reivindicações. Destacam-se os vários grupos armados da esquerda e a posição do PCB que era contra a luta armada. Carlos Marighela funda a ALN. É decretado o AI nº5, que visa fechar o congresso e agir nos estados, entre outros pontos. Costa e Silva é substituído por uma junta militar após seu problema de saúde. No governo de Médici o PIB cresce 11% em 1968 e 10% em 1969, sendo seu governo considerado um dos mais repressivos, como mostra a queda dos grupos armados, com a luta no Araguaia (1975) sendo esse o último foco dela. Nesse contexto é fundada a Rede Globo, porta-voz do regime. Em 1973 o PIB cresce 13% e a conjuntura é de ampla disponibilidade de recursos, em que o estado intervinha em muitas áreas. Ocorria grande concentração de renda. Geisel inicia a chamada aberta lenta, gradual e segura. Ocorrem divergências entre estado e igreja e a oposição goza de vida independente. Jornais como Folha de São Paulo e Estado de São Paulo tem suspensão à censura[22]. Ocorre à morte do jornalista Vladimir Herzog e a OAB se dispõe a investigar sua morte. Em 1977 ocorre a invasão da PUC pelo militares. No pacote de abril ocorre uma crise entre o executivo e senado. O AI 11 gera diminuição do poder do presidente. A crise do petróleo de 1973 é misturada com um resto de euforia do milagre econômico. No governo Geisel o PIB fica em 6% em 1974 e 4% em 1978 e sua política não se aplicava a desmantelar os sindicatos, sendo que eles conseguiram um novo sindicalismo, com marcas próprias e sem orientação do PCB, fruto das novas lideranças operárias e da igreja na década de 1970 no ABC paulista. Destaca-se a figura de Luis Inácio “Lula” da Silva. São contabilizadas 27 paralisações e 20 greves de professores. O governo de João Batista Figueiredo, iniciado em 1979 e segundo o autor era um governo ambíguo, pois ele pertencia à chefia de órgãos repressivos e promovia a abertura política. Entre 1981 a 1983 ocorre forte recessão, chamada de estagflação (estagnação + inflação), posteriormente ocorrendo uma significativa melhora econômica. Destacam-se a bomba na sede da OAB e o acidente no episódio da bomba no Riocentro em 1981, tendo o governo manipulado as investigações. Em 1979 é instituída a lei orgânica dos partidos e passam a existir duas centrais sindicais; CUT e CGT. Em 1983 o PT promove as “diretas já”, de grande movimentação nacional. Tancredo Neves vence a eleição indireta de 1985, ao lado de outros candidatos como Paulo Maluf. Sobre o regime militar
Outra noção associada ao regime militar é o autoritarismo. De fato, o regime não teve características fascistas: não se realizaram esforços para organizar as massas em apoio ao governo; não se tentou construir o partido único acima do Estado, nem uma ideologia capaz de ganhar os setores letrados. Pelo contrário, a ideologia de esquerda continuou a ser dominante nas universidades e nos meios culturais em geral. Há mesmo quem considere que, com exceção do período Médici, o Brasil pós-1964 se caracterizou mais por uma situação autoritária do que por um regime autoritário.[23]

A morte de Tancredo é sentida pelos dois lados, sendo um dos poucos que conseguia tal feito.

10. COMPLETA-SE A TRANSIÇÃO 1985-1990
O governo Sarney

            O governo Sarney foi marcado pelas liberdades políticas, legalização dos partidos, imobilidade política, disparada da inflação (ele convocou os brasileiros e brasileiras para perseguir a inflação com o plano cruzado). Destaca-se a moratória de 1987 e a pressão dos vários setores na formulação da constituição de 1988, marco do fim da ditadura. Em 1993 é votado em um plebiscito nacional sobre se seria escolhido o presidencialismo/parlamentarismo ou república/monarquia.

11. PRINCIPAIS MUDANÇAS OCORRIDAS NO BRASIL ENTRE 1950 E 1980
            A população brasileira quase dobra entre 1950 a 1990, ela envelhece e cai taxa de fecundidade. Em 1930 o café entra em crise, ocasionando novas produções. Em 1980 a maioria da população concentra-se nas cidades. O autor aponta para os enormes desperdícios de empresas como Cica e Maguary. Na década de 1950 a 1960, o crescimento era em torno de 10%. Em 1970 a pós-graduação cresce 31% ao ano, bem mais que as outras esferas, mostrando como a educação é entendida para o autor como um privilégio no Brasil.

12. A NOVA ORDEM MUNDIAL E O BRASIL
            O autor aponta para o fim da diferença entre dominantes e dominados. A revolução tecnológica deixa para trás a revolução industrial. Ocorre a dispersão dos centros decisórios. É destacado o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, e o autor finaliza o livro com o seguinte dizer
Se o quadro é complicado, a esperança bem ou mal permanece. O Brasil perdeu terreno no nível socioeconômico, nos últimos doze anos, mas ainda mantém a vitalidade. Escrevendo em meados de 1993, espero que a difícil tarefa de recuperar o país se viabilize e não se converta em uma missão impossível.[24]

            O livro História do Brasil, de Boris Fausto, pode ser compreendido como uma ousada ideia, a de em um único volume comportar a história do Brasil, pensando-se nas inúmeras possibilidades que o autor lança e debate, em que se atravessavam tendências mais ligadas à fragmentação dos métodos historiográficos, o que em linhas gerais aponta o quanto esse livro pode representar relativo a uma visão da história vista por cima.


BIBLIOGRAFIA

AMEUR, Farid. Guerra da Secessão. Tradução de Denise Bottman. Porto Alegre: L&PM. 2010.

BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica: história da imprensa brasileira. 5º edição. Rio de Janeiro: Mauad X. 2009.

COSTA, Homero de Oliveira. A insurreição comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia. São Paulo: Ensaio. Rio Grande do Norte: Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte. 1995.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994.




[1] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 13.
[2] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 38.
[3] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 50.
[4] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 81.
[5] Metáfora sobre o fato dos lusos se fixarem principalmente no litoral que no interior da colônia.
[6] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 100.
[7] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 146.
[8] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 161.
[9] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 183.
[10] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 216.
[11] Deve destacar que esses números são mais ilustrativos, dada o que se poderia entender pelos três setores na época.
[12] Cf: AMEUR, Farid. Guerra da Secessão. Tradução de Denise Bottman. Porto Alegre: L&PM. 2010. Produzi uma resenha desse livro em: < http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=resenhas&id=75 > Acessado em: 25.1.2012.
[13] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 295.
[14] Um trabalho bem produzido sobre esse movimento é: COSTA, Homero de Oliveira. A insurreição comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia. São Paulo: Ensaio. Rio Grande do Norte: Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte. 1995.
[15] Aliança da Liberdade Nacional.
[16] Leis de Segurança Nacional.
[17] Departamento de Imprensa e Propaganda.
[18] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 418.
[19] Grupo Executivo da Indústria Automotiva, criada por decreto de Juscelino.
[20] Fundo Monetário Internacional.
[21] Serviço Nacional de Informações criado em 1964.
[22] Um trabalho importante acerca dessa temática é BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica: história da imprensa brasileira. 5º edição. Rio de Janeiro: Mauad X. 2009.
[23] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 513.
[24] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP. 1994. p. 556.